Quando a velhice arruinar esta geração: “A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich

Amadurecer é vislumbrar o que persiste no tempo, e aceitar o que ele leva embora.

Publicado no site Persona Cinema em 13/10/2019.
O protagonista Sonny (Timothy Bottoms) com seus amigos Duane (Jeff Bridges) e Jacy (Cybill Shepherd)

“Tu, forma silente, arroja-nos ao sortilégio
Qual a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a velhice arruinar esta geração,
Permanecerás, em meio a outro infortúnio
Que não o nosso, amigo do homem, a quem proferes,
‘A Beleza é Verdade, a Verdade Beleza’ — isto é tudo
O que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber.”

(Versos finais de “Ode a uma urna grega”, de John Keats, em tradução de Alberto Marsicano e John Milton. Todos os versos doravante citados referem-se ao mesmo poema¹.)


“Será que eu tenho chance de fazer vocês se interessarem por John Keats?”, pergunta o professor antes de ler para a turma os versos finais de “Ode a uma urna grega”. Antes disso, ele havia discutido o sentido de “Ode a um rouxinol” com o único aluno que pareceu interessado, o filho do pastor local, que, no entanto, desaprovou o poema, argumentando que para o anseio pela eternidade bastaria a fé cristã. Enquanto isso, Sonny (Timothy Bottoms) olha janela afora e observa dois cães no cio. Há um contraste entre a gravidade dos versos de Keats e a modorrenta distração da turma, interligados, porém, por um silêncio que parece pairar sobre a cena, um silêncio em parte opressivo e desolador, em parte prenhe de vaga expectativa, que permanece latente ao longo de todo o filme A Última Sessão de Cinema (‘The Last Picture Show’, 1971) dirigido por Peter Bogdanovich.

Esse silêncio perpassando contrastes parece pairar também sobre a ode de Keats, que descreve a arte pictórica de uma antiga urna grega enquanto reflete um sentimento de como o efêmero fica impresso na eternidade, e vice-versa, colocando em relação o retrato fugaz de um momento de alegria, a passagem inexorável do tempo, a inevitabilidade da morte, a atemporalidade dos profundos anseios humanos, a permanência do espírito através das gerações e a perspectiva da eternidade que a tudo transcende — ou, fazendo uso do poder de síntese de consagradas expressões latinas, colocando em relação carpe diem, tempus fugit, memento mori, sub specie aeternitatis.

De modo que a pergunta do professor aos distraídos jovens também pode ser interpretada como “Será que eu tenho chance de fazer vocês se interessarem pela eternidade?”. A obtusa reação do filho do pastor e a imagem do acasalamento dos cães vista janela afora dão o tom do espírito que predomina na pequena e poeirenta cidade de Anarene, Texas: filistinismo, indolência, tédio e libido exacerbada.

Fria Pastoral

Sonny é o protagonista do filme, e o modo como somos introduzidos a ele nos primeiros minutos é significativo da tensão entre a mediocridade de Anarene e o espírito inquieto da juventude que almeja por algo mais, mesmo sem saber exatamente pelo quê. Nos primeiros quinze minutos vemos quatro ou cinco situações em que Sonny se distrai ou altera o seu foco de interesse, sempre no sentido de ser atraído por uma beleza que parece apontar para além das perspectivas imediatas. Quando ajusta o dial do rádio do carro para melhor ouvir a música, enquanto o motor está falhando; quando beija a namorada de olhos abertos no cinema, para não perder de vista Elizabeth Taylor na tela; quando espia a namorada do amigo no banco da frente do cinema, muito mais bela que a sua; quando fica sonhador e melancólico com uma bela canção ouvida no rádio do carro, no exato momento em que beijava e apalpava a namorada — em todas essas situações, a distração de Sonny é, na verdade, a sua verdadeira atração (Eros), embora ele seja jovem e inexperiente demais para elaborar essa autoconsciência.

O início do filme mostra a atenção de Sonny sendo atraída por elementos que sugerem uma realidade mais fértil para o seu espírito e sua imaginação, como as canções do rádio e os filmes do cinema.

Talvez possamos incluir uma quinta situação, quando altera o seu trajeto para dar carona ao amigo Billy (Sam Bottoms), rapaz com limitações mentais que não fala e passa os dias varrendo inutilmente as ruas empoeiradas da cidade. Há uma verdadeira amizade entre os dois jovens, e Sonny parece atraído pela inocência e incorruptibilidade de Billy, que não deixa de ser uma forma de beleza superior. Mas não sejamos idealistas, pois se a argumentação serve para o nosso propósito de apontar a sede de Sonny por realidades mais amplas, também devemos lembrar que na mencionada cena da sala de aula Sonny se distrai com os cães janela afora enquanto o professor tenta despertar o interesse pela poesia. Como todos os jovens da turma no último ano escolar, procurando perspectivas para o início da vida adulta em uma cidade que parece esquecida no vácuo, Sonny também está à deriva, sendo levado pelas circunstâncias, especialmente pelas descobertas sexuais.

“Você parece estar entediado”, reclama a namorada. Sem dúvida o tédio é uma força permanente em Anarene, mas a questão é que Sonny está sendo atraído justamente para fora do tédio. Apalpar belos seios pode parecer o que há de mais excitante, especialmente para um jovem interiorano, mas a verdade é que Sonny não quer se deixar dominar por circunstâncias mesquinhas que castram o espírito e a imaginação, pervertendo ou domesticando a sua energia vital, a sua atenção íntima diante da beleza que entrevê nos filmes, nas músicas, na amizade, nas pessoas.

Coração aflito e saciado

O filme é de 1971, mas a história (baseada em romance de Larry McMurtry, que trabalhou no roteiro junto com o diretor Peter Bogdanovich) se passa em 1951. Trata-se do período pós-guerra de grande prosperidade nos Estados Unidos, mas a ambientação do filme na empobrecida cidadezinha de Anarene não reflete todo o otimismo do baby boom. Naquelas terras esquecidas do interior texano, todo o lazer se concentra no cinema, na lanchonete e na sinuca, estabelecimentos de propriedade de Sam (Ben Johnson), personagem que encarna os valores de uma geração em vias de desaparecimento. Sam representa o envelhecimento e a morte de um mundo, o esfacelamento de uma geração que fica para trás, de uma sabedoria e de uma dignidade que são levadas à exaustão pelas novas dinâmicas da juventude e da tecnologia, enfatizadas no som e na imagem do filme pelo alto ruído dos motores e velocidade exagerada dos automóveis, bem como pelo torpor solitário provocado pela televisão.

Em estupendo monólogo junto a um açude, Sam conta para Sonny suas memórias de quando banhava-se nu naquele local com a sua jovem amada, montados em cavalos. Tendo em mente a ode de Keats, é inevitável comparar a descrição dos amantes representados na urna grega com as imagens evocadas por Sam:

“Belo jovem, sob as árvores, não deixarás
Tua canção, como jamais perderão as árvores suas folhas;
Amante audacioso, nunca, nunca beijarás
Embora perto de tua meta — não te aflijas;
Ela não se desvanecerá, e embora não tenhas o deleite,
Sempre amarás, e será ela sempre bela!
[…]
Mais amor feliz! Mais feliz, feliz amor!
Eternamente cálido e para sempre a ser gozado,
Continuamente palpitante e sempre jovial;
Todos eles suspirando a intensa paixão humana,
Que deixa o coração aflito e saciado,
A cabeça quente, e a língua seca.”

Ao terminar o relato, Sam fica embaraçado com a nostalgia daquela paixão perdida no tempo. “Não é ridículo?”, pergunta — ao que ele mesmo responde, “Não, não é. Ficar louco por uma mulher como aquela é que é o certo. Ser um velho decrépito, isso é que é ridículo. Ficar velho.A implacável consciência da finitude e da passagem inexorável do tempo é acentuada pela transição para a cena seguinte, mostrando a piscina na casa de um jovem rico em uma cidade próxima, após uma festa em que Jacy (Cybill Shepherd) e outros jovens banharam-se nus. Reforça-se a nostalgia da geração que se esvai junto com Sam, contrastando a memória indelével de uma paixão intensa e de sua nudez a céu aberto com a nudez narcisista de uma festa esnobe.

O relato de Sam, assim como o seu clamor por dignidade (na cena em que confronta a imaturidade dos rapazes) e o perdão e a confiança que concede a Sonny têm a força do exemplo vivo que dá testemunho de uma vida concreta, com suas agruras e seus esplendores, influenciando decisivamente a imaginação moral que se descortina na vida do jovem protagonista. A sabedoria do velho Sam alarga os limites da experiência pessoal de Sonny, afastando-o da ameaça do solipsismo e afirmando a realidade de uma comunidade de almas que transcende a mera coletividade, de um lado, e a pura individualidade autocentrada, de outro.

O forte teor geracional da história refletido em planos opostos (acima à esquerda e à direita, em cena de noturno antagonismo entre os rapazes e o velho Sam), e em plano de solar conciliação, quando Sam abre seu coração e relata suas memórias.

Quando o cinema de Sam fecha as portas, falido, é como se uma morte simbólica avançasse sobre o espírito e a imaginação dos habitantes de Anarene — é como se o último fragmento de uma bela urna grega se perdesse para sempre. Não mais veremos Sonny espiando a tela furtivamente, nem Billy dedicando sua inocente atenção ao encanto da telona. Se a tela de cinema pode ser comparada à urna grega da ode de Keats, mantendo vivo o testemunho da beleza e da verdade, revigorando a relação entre o efêmero e o eterno, então o fechamento do cinema testemunha a ruína de uma geração que envelheceu rapidamente, muito rapidamente, atropelada por uma geração ocupada demais com sua própria juventude.

Melodias espirituais

Ávido por desfrutar da beleza de Jacy, a garota mais bonita da cidade, Sonny se deixa levar por suas artimanhas ambiciosas e manipulações narcisistas, abandonando Ruth (Cloris Leachman), a quarentona com quem mantinha uma relação adúltera. Adultérios, virgindades desfeitas, jogos sexuais, nudez e libidos voluptuosas são constantes no filme, embora haja pouco de verdadeiro erotismo, como observado por Roger Ebert, que cita a cena em que Ruth simplesmente penteia os cabelos de Sonny como das mais cálidas. De fato, grande parte das situações de cunho sexual são embaraçosas ou constrangedoras, inclusive a primeira relação de Sonny e Ruth; com o passar do tempo, porém, embora não apareçam mais explicitamente, as cenas entre os dois sugerem uma intimidade muito bem resolvida e plenamente recíproca. Nenhuma nudez ou sedução mostrada no filme supera o erotismo das suas mãos entrelaçadas no reencontro na cozinha.

O processo de amadurecimento de Sonny, sob a influência de Sam e da presença trágica da morte, pode ser sintetizado em dois elementos fundamentais: o sofrimento e o erotismo — e Ruth é o principal elo entre ambos. É testemunhando o sofrimento de Ruth que Sonny compreende mais profundamente a vulnerabilidade da condição humana, o que mexe com alguma dimensão do seu coração que até então parecia inerte. E é graças à abertura de Sonny a Eros (como força que move o coração humano e que desperta um interesse vivo e genuíno), sugerida por sua atenção às músicas e aos filmes, que ele se torna capaz de perceber tudo o que o brilho no olho de Ruth promete — pois “as melodias são doces, mas aquelas não ouvidas são mais doces”.

“As melodias são doces, mas aquelas não ouvidas
São mais doces; desta maneira, vós, suaves flautas, soai;
Não ao ouvido sensorial, mas, ternamente,
Toquem as melodias espirituais do não-som.”

Genevieve (Eileen Brennan), Lois (Ellen Burstyn) e Ruth (Cloris Leachman): os encontros de Sonny com as fortes personagens femininas se tornam ainda mais marcantes diante das formidáveis interpretações das atrizes.

Tudo o que sabeis na terra?

Voltemos à cena na sala de aula. Se por um lado ouvimos os versos de Keats e a discussão sobre beleza, verdade e eternidade, por outro lado é possível ver no quadro-negro a inscrição de um verso de Júlio César, tragédia de Shakespeare: “Men at some time are masters of their fates” (em tradução livre: “Às vezes os homens são senhores dos seus destinos”), o que transmite uma ideia pragmática e imanente sobre o poder da vontade e da ação humanas, aspecto também negligenciado em meio àqueles jovens volúveis e desinteressados. Sonny, ao fim, tendo conhecido o sofrimento, encarado a morte e vivenciado Eros, amadurece também como senhor do seu destino (no sentido de maturidade, não de arrogante autossuficiência); chega a iniciar uma fuga estrada afora, mas retorna, assumindo suas responsabilidades, perdoando seu amigo Duane (Jeff Bridges), com quem havia brigado por causa de Jacy, e buscando o perdão de Ruth.

O reencontro entre Sonny e Ruth, na mesma cozinha em que começaram a sua aproximação, é daquelas cenas que se tornam míticas, memoráveis, exemplares — explosão dramática que parte das entranhas e chega ao coração, desconsolo que se torna o maior consolo. E é como se na louça espatifada contra a parede estivesse também a preciosa urna grega de Keats; seus valores elevados reduzem-se a fragmentos. Mas é naqueles cacos do que sobrou da humanidade de Sonny e Ruth que reconhecemos os pedaços de uma insondável grandeza, de um anseio por coisas com que nem sonha a nossa vã filosofia — como a reconhecemos, também, naquele instante da ventura humana tornado perene pela arte da urna grega e pelo olhar do poeta.

Se o vento inclemente de Anarene não varrer tudo para o vórtice da mais completa escuridão, pode ser que os cacos sejam juntados e reunidos, formando novamente a imagem de uma eternidade, ainda que trincada. Incontáveis gerações ainda haverão de fazer as suas odes diante d’A Última Sessão de Cinema — que permanecerá, em meio a outro infortúnio que não o nosso, dando o testemunho da Beleza que é Verdade, da Verdade que é Beleza.

Clássico e desolador, o plano de desfecho do filme mostra o mesmo panorama da rua deserta que vimos na abertura, agora com a câmera se movimentando em sentido contrário. O mesmo vento varrendo a poeira a esmo, o mesmo silêncio opressivo e expectante — a única diferença é que não há mais nenhum filme em cartaz na fachada do cinema.

E o que isso representa para o espírito inquieto e jovem que quer descobrir a real dimensão de Eros e da imaginação, senão a reflexão sobre se ainda resta alguém que considere que ir ao cinema seja uma experiência única, um ritual que não pode ser substituído pela televisão ou pelos eletrônicos? Quem de nós experimenta ainda um sublime estremecimento quando a luz apaga, o filme começa, e nos irmanamos em silêncio com os desconhecidos com quem compartilhamos a escuridão?

“E, na pequena cidade, tuas ruas sempre estarão
Em silêncio, pois ninguém que poderia contar
Por que estás deserta voltará.”


Nota:

¹ O poema completo pode ser lido neste link, a partir da página 28.


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