O ano da peste. O ano dos cinemas fechados. O ano em que mais assisti filmes na minha vida, porém em que menos vezes fui ao cinema — uma contradição atroz, para quem considera que o ritual da sala de cinema pode ser tão importante quanto o filme em si. Lamentações evasivas de quem assistiu apenas oito lançamentos e oferece esta escassa lista de preferidos:
1º) Uma Vida Oculta (Terrence Malick)
Malick volta a pisar em chão mais firme, ao mesmo tempo em que nos leva para alturas alpinas — e além. Terra e Céu conjugam-se numa grande história de amor. Escrevi sobre o filme para o Persona.
Mia (Emma Stone), Sebastian (Ryan Gosling) e Los Angeles: o esplendor de entrar em cena, a frustração de sair de cena.
De repente, em pleno domingo no parque, a Senhorita Brill dá-se conta, entusiasmada, de que todas aquelas pessoas — inclusive ela mesma — estavam atuando numa inconsciente peça teatral. “Ah, como era fascinante!” — reflete a personagem do conto de Katherine Mansfield [1] — “Como ela gostava daquilo! Como amava sentar ali e assistir a tudo! Era como uma peça de teatro! Era exatamente como uma peça de teatro. Quem não acreditaria que o céu, ao fundo, não era pintado?”. Estavam todos num invisível palco, e era isso o que tornava tudo tão emocionante aos olhos da Srta. Brill:
“A banda tinha estado descansando. Agora, voltavam a tocar. E o que tocavam era caloroso, ensolarado, contudo havia uma leve friagem — alguma coisa, o que era? — não era tristeza — não, não tristeza — algo que fazia a gente querer cantar. A melodia se elevava cada vez mais e a luz brilhava. A Srta. Brill teve a impressão de que, a qualquer momento, todos eles, toda a companhia, começariam a cantar. Os jovens, os risonhos que passeavam juntos, esses começariam. Depois, as vozes masculinas, mais firmes e viris, se juntariam à deles. E então, ela também, ela também, e os outros nos bancos — eles entrariam com um tipo de acompanhamento”…
A expansão de um estado de espírito muito parecido com esse que Mansfield criou no conto Senhorita Brill pegou a muitos de nós desprevenidos na abertura de La La Land (2016, dir. Damien Chazelle), em que um engarrafamento de rotina num viaduto de Los Angeles repentinamente explode em cantorias, cores, coreografias, homens e mulheres esfuziantes — um mundo que não cabe em si de tanta alegria, de tanta vontade de cantar e de dançar. Súbito, tudo parece muito falso, quase ridículo — o céu, ao fundo, não parece pintado? Estavam todos num invisível palco, e, antes que o nosso receio de não suportar duas horas de tão artificial espetáculo nos fizesse desistir do filme, se impunha adotar a perspectiva da Srta. Brill: era isso o que tornava tudo tão emocionante. Continue Lendo “Algo que nos faz querer cantar: “La La Land”, de Damien Chazelle”
“O desejo do homem sendo Infinito, a posse é Infinita e ele mesmo Infinito” (William Blake)
Depois de explorar as ruas, as noites, os condomínios, os trens, os cheiros e as temperaturas de Nova York nos seus cinco primeiros longas — Fuga para Odessa (1994), Caminho sem volta (2000), Os donos da noite (2007), Amantes (2008) e Era uma vez em Nova York (2013) — , James Gray se afasta de casa, se afasta muito, nos seus dois filmes mais recentes: transita entre a Inglaterra do início do século XX e a selva amazônica em Z: A Cidade Perdida (2016) e viaja até os confins do Sistema Solar em Ad Astra (2019). Abre-se, nesse movimento para fora, uma janela de infinita perspectiva — de fome metafísica — , representada, sobretudo, pelas insaciáveis ambições do explorador arqueológico Percy Fawcett e do explorador espacial McBride (o pai), ambos em busca de uma realidade absoluta que transcenda as contingências da vida e que justifique uma jornada que nunca termina.
Em contrapartida, tamanho salto para dimensões imensuráveis resulta numa sensível perda de calor humano no cinema do diretor — um prejuízo calculado, sem dúvida, pois a dificuldade de estabelecer fortes laços afetivos é um dos aspectos que caracterizam os personagens desses filmes. E, embora seja possível apontar essa característica em variados graus ao longo de toda a filmografia do diretor, o fato é que nos seus dois últimos filmes saem de cena os ambientes domésticos, os apartamentos abafados, as danceterias efervescentes, a sensualidade feminina, a cultura urbana, o sexo, a umidade noturna do Queens, do Brooklyn e das demais paisagens nova-iorquinas. Até mesmo na ambientação gelada e sombria de Fuga para Odessa a tela está impregnada com mais calor humano, mais epiderme viva, mais desejo pulsante do que na janela formada pelos dois filmes mais metafísicos do diretor. Continue Lendo “O paraíso perdido de James Gray”
Um prolongado plano completamente escuro, ao som de um exuberante e vívido coral: eis os momentos iniciais do primeiro longa de James Gray, Fuga para Odessa(Little Odessa, 1994). Em esplêndida sincronia, no momento mais agudo e elevado da música surge, na obscuridade, um olho em super-close. Faz-se a luz, a pupila oscila como uma lente procurando ajustar-se à claridade — começa o filme. A gênese do cinema de Gray se dá a partir de um olho que se abre na escuridão, por obra de um som celestial. É nesse universo de luz e sombras que vai se desenvolver uma das filmografias mais consistentes surgidas nas últimas décadas, realizada por um nova-iorquino descendente de judeus ucranianos.
O olho que emerge das sombras é de Joshua Shapira (Tim Roth), um assassino a serviço de mafiosos russos em Nova Iorque. Com a frieza e a potência de uma espécie de anjo da morte, ele retorna a Little Odessa — como é conhecida a área de Brigthon Beach, no Brooklyn, onde se concentram descendentes de russos — para uma fracassada e nefasta parábola do filho pródigo: o pai (Maximilian Schell) não quer a volta do filho assassino, apesar do esforço de aproximação empreendido pelo filho mais jovem, Reuben (Edward Furlong), e da doença terminal da mãe (Vanessa Redgrave). O pai sente que a presença de Joshua é o mau agouro do que ele considera um castigo divino. Continue Lendo “Morrer de olhos abertos em “Little Odessa”, de James Gray”
Na sua recém-publicada autobiografia, Apropos of Nothing, Woody Allen inclui entre os predicados de Scarlett Johansson uma “radioatividade sexual”, que o diretor soube explorar, sobretudo em Match Point (2005). Sob a direção de Sofia Coppola, no entanto, a jovem atriz, às vésperas de completar dezoito anos de idade, não emanava energias tão avassaladoras — nem por isso se fazia menos notável. Em Encontros e Desencontros (2003), ela é Charlotte, recém-formada em Filosofia e existencialmente à deriva, uma personagem marcada por uma melancólica doçura — ainda que temperada com um eventual toque de acidez — e por uma discreta e cálida centelha interior.
Intuindo tudo o que a atriz já podia oferecer e tudo o que ainda viria a desabrochar na sua plenitude, a diretora abre o seu filme com um demorado plano preenchido com a calcinha semitransparente que veste as nádegas de Johansson. Soa vulgar com as minhas pobres palavras, mas a imagem é de uma elegância, placidez e singeleza exemplares. Surge na tela o título original do filme — Lost in Translation — como a apropriada legenda do que sente o espectador diante de um plano tão audacioso em sua simplicidade, clássico e provocante como o plano de abertura de Stanley Kubrick para Lolita. Há, nessa única imagem estática, um sabor de sonho misturado ao de cotidiano, uma força espiritual impregnada na carne, uma doçura peculiarmente insinuante. Os principais elementos do filme já estão sugeridos aí: a beleza que se quer revelar, o esforço por adivinhar o que está na camada do não dito e do não mostrado, o silêncio contemplativo, a solidão, o tédio. Continue Lendo “A alma é sempre estrangeira: “Encontros e Desencontros”, de Sofia Coppola”
É conhecido um pequeno incidente biográfico que diz mais sobre a obra de Dostoiévski do que parece. O grande autor russo teria desmaiado diante de uma jovem beldade a quem fora apresentado, tamanha a impressão causada por sua beleza. Imediatamente somos levados a lembrar do enorme poder que a beleza feminina exerce sobre os personagens de Dostoiévski. Poder caracteristicamente ambíguo, como são as expressões humanas que compõem o universo do autor, mas que inevitavelmente põe em marcha episódios repletos de rivalidade, inveja, orgulho, obsessão, ressentimento e toda sorte de forças demasiado humanas que arrastam homens e mulheres para o caminho do conflito e da perdição. Em contrapartida, surge no coração dos grandes romances do autor o brilho delicado de uma beleza que, ora oculta, se revela em plena luminosidade, não raro nutrida em meio ao grotesco das paixões exaltadas.
Fala-se na Síndrome de Stendhal, perturbação física e mental causada pela beleza de grandes obras de arte ou de paisagens deslumbrantes, mas como poderíamos caracterizar essa síndrome de Dostoiévski, por assim dizer, que, de um lado, afirma que “a beleza salvará o mundo” (aforismo que remonta a O Idiota), e, de outro, faz desfalecer um homem apenas por ver-se diante de uma jovem encantadora? Que, por um lado, arrasta homens e mulheres para os mais ignóbeis desejos e rivalidades, por outro faz surgir o esplendor da criatura humana na simples visão de um sorriso, por exemplo, ou na contemplação de uma criança? Continue Lendo “A beleza sem tradução: “O Adolescente”, de Dostoiévski”
Em determinado momento de Stoner, o magnífico romance de John Williams, o protagonista se vê pressionado a se alistar voluntariamente no exército norte-americano, quando seu país se engaja na 1ª Guerra Mundial, embora ele duvide do sentido do conflito. Ao se aconselhar com seu experiente ex-professor Sloane, ouve o seguinte:
“Você precisa lembrar o que você é, o que escolheu ser e o significado do que está fazendo. Há guerras e derrotas e vitórias da raça humana que não são militares e não são registradas nos anais da história. Lembre-se disso quando estiver tentando decidir o que fazer.” [1]
Ninguém oferece um tão sábio e corajoso conselho a Franz Jägerstätter (August Diehl), o camponês austríaco cuja história inspirou o novo filme de Terrence Malick, Uma Vida Oculta (“A Hidden Life”, 2019). Solitário em sua decisão, ao ser convocado Franz negou-se a prestar o juramento de lealdade a Hitler, sendo preso e executado, além de ter provocado a hostilidade de praticamente toda a vila de St. Radegund (ou Santa Radegunda) contra si e sua família. Continue Lendo “Inundado por uma nova luz: “Uma Vida Oculta”, de Terrence Malick”
Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver) são prósperos profissionais das artes cênicas, que se vêem envolvidos em uma escalada de hostilidades no curso do processo de divórcio, levando à disputa pela guarda do filho Henry (Azhy Robertson).
“Não temos grande culpa pelos nossos casamentos fracassados. Vivemos em meio a alucinações, e essa armadilha especial é preparada para nos apanhar pelos pés, e nela caímos todos, cedo ou tarde”. (Ralph Waldo Emerson¹)
Próximo ao final de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), o casal de protagonistas ouve as respectivas gravações dos áudios em que um fala do outro, repletos de rancor e desgosto. O que seria um instrumento para uso restrito da clínica que intermediava a separação conjugal acaba por cair nas mãos dos clientes. Assim, inadvertidamente, Joel (Jim Carrey) ouve a descrição dos seus irritantes defeitos pessoais pela voz de Clementine (Kate Winslet), e vice-versa. São cenas de um triste constrangimento para ambos, abalados com a súbita revelação do que seus parceiros realmente pensavam, mas não diziam um ao outro, com os requintes de crueldade próprios do ressentimento e da mágoa de um relacionamento fracassado. No desenrolar da história, entretanto, é nesse ponto crítico que os personagens são desafiados se olharem com franqueza, a se aceitarem e perdoarem; é nesse ponto crítico que o rancor de uma paixão esvaída se abre para a possibilidade de um amor renovado, o que proporciona ao final do filme uma inspiradora perspectiva de esperança.
O mesmo recurso narrativo e a mesma perspectiva de esperança marcam a abertura de História de um Casamento (dirigido e roteirizado por Noah Baumbach, 2019), em que, por meio de uma narração em off, ouvimos, respectivamente, Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson) dizendo o que pensam um do outro. Aqui, contudo, o rancor e a mágoa não são expressados, pois, como ficamos sabendo em seguida, trata-se de uma sessão de terapia para casais em separação, em que são instados a escrever e ler sobre as qualidades de seus parceiros. Continue Lendo “A coisa mais difícil do mundo: “História de um Casamento”, de Noah Baumbach”
Paul Walter Hauser interpreta o protagonista Richard Jewell, segurança nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996.
Aos 89 anos de idade, Clint Eastwood segue demonstrando excelência na capacidade de contar uma história e no manejo das emoções, agora com O Caso Richard Jewell.
Baseado nos fatos reais do atentado à bomba durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, que deixou dois mortos e mais de cem feridos — ação que poderia ter sido muito agravada não fosse pela interferência do segurança Richard Jewell (Paul Walter Hauser), que viria, entretanto, a se tornar o principal suspeito do crime —, Eastwood retoma o motivo do herói anônimo, na mesma linha de, principalmente, Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) e 15h17: Trem para Paris (2018), inclusive mantendo uma abordagem visualmente sóbria, simples e eficiente.
A narrativa se sustenta sobretudo na relação entre as expectativas que criamos sobre o protagonista (nós, espectadores, sabemos que Jewell é inocente, um homem bom, diligente e dedicado), e a vertiginosa pressão que ele passa a sofrer a partir do escândalo midiático gerado pela investigação, exigindo uma reação que poderá implicar em sua ruína ou no seu impulso final para fora da rede de suspeitas infundadas e má fé que parasitam sua vida. É no hábil sustento dessa relação que se encontra o brilhantismo oculto da narrativa, pois ele mantém a tensão permanente sem abusar da atenção e da emoção do espectador. A expectativa acerca de como Jewell irá reagir dentro da infernal panela de pressão em que foi colocado, de um lado, e da solidez de sua personalidade contida, prudente e impassível, de outro, é o que nos faz mais interessados na trama conduzida por Eastwood. Continue Lendo “Os limites da inocência: “O Caso Richard Jewell”, de Clint Eastwood”
Esta é a segunda metade do ensaio abordando dez cenas inesquecíveis (acesse aqui a primeira parte). Identifica-se o título do filme, diretor e ano de produção. Nos casos em que a trilha sonora tem uma presença muito relevante, segue também identificado o compositor. A ordem é cronológica.
O critério é exclusivamente subjetivo, sem qualquer intenção de representatividade. Se é verdade que se tratam de memórias afetivas pessoais, também é verdade que as cenas têm um formidável potencial de identificação e de comunhão, que justificam serem compartilhadas. Com breves comentários, espero estimular uma reflexão que está sempre no horizonte do Persona: o caráter de revelação do cinema, e como o amor pelos filmes nos une ao coração da vida.Continue Lendo “De olhos bem abertos: dez cenas para a eternidade”