do heroísmo possível em tempos de desconfiança e de virtudes desacreditadas
Publicado no site Persona Cinema em 12/01/2020.

Aos 89 anos de idade, Clint Eastwood segue demonstrando excelência na capacidade de contar uma história e no manejo das emoções, agora com O Caso Richard Jewell.
Baseado nos fatos reais do atentado à bomba durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, que deixou dois mortos e mais de cem feridos — ação que poderia ter sido muito agravada não fosse pela interferência do segurança Richard Jewell (Paul Walter Hauser), que viria, entretanto, a se tornar o principal suspeito do crime —, Eastwood retoma o motivo do herói anônimo, na mesma linha de, principalmente, Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) e 15h17: Trem para Paris (2018), inclusive mantendo uma abordagem visualmente sóbria, simples e eficiente.
A narrativa se sustenta sobretudo na relação entre as expectativas que criamos sobre o protagonista (nós, espectadores, sabemos que Jewell é inocente, um homem bom, diligente e dedicado), e a vertiginosa pressão que ele passa a sofrer a partir do escândalo midiático gerado pela investigação, exigindo uma reação que poderá implicar em sua ruína ou no seu impulso final para fora da rede de suspeitas infundadas e má fé que parasitam sua vida. É no hábil sustento dessa relação que se encontra o brilhantismo oculto da narrativa, pois ele mantém a tensão permanente sem abusar da atenção e da emoção do espectador. A expectativa acerca de como Jewell irá reagir dentro da infernal panela de pressão em que foi colocado, de um lado, e da solidez de sua personalidade contida, prudente e impassível, de outro, é o que nos faz mais interessados na trama conduzida por Eastwood.
Move o sol e as estrelas
Jewell tem um caráter estoico de surpreendente força mental, recusando-se a sucumbir à vitimização diante da injustiça que sofre. Ocorre, no entanto, um abalo na sua “fé”: da crença sem reservas no valor da autoridade — policial, judiciária, estatal — para proteger as pessoas, ele passa a desconfiar do poder dessa autoridade. Em contrapartida, emerge com maior força o valor da dignidade da iniciativa pessoal e do comprometimento individual de cada sujeito à sua responsabilidade, à sua consciência, ao seu dever.
É o seu amigo e advogado Watson Bryant (Sam Rockwell) quem o conduz a aceitar essa mudança de perspectiva, como fica explícito na sua fala já próxima do final, ao advertir Jewell de que os policiais do FBI que o aguardavam para o interrogatório não eram “o Estado”, como Jewell acabara de dizer, mas agentes indignos a serviço do Estado. Percepção que leva o protagonista a finalmente expressar sua desilusão com as forças policiais federais, e a confrontá-las com a constatação de que não havia nenhum indício concreto que fundamentasse a suspeita contra si.
A postura ativa do advogado Bryant, por sua vez, é fundamentalmente estimulada pela perspicácia e perseverança de sua secretária, Nadya (Nina Arianda) — é ela quem desconfia da ação policial e quem, desde o princípio, insiste para que ele se engaje no caso (“de onde eu venho, quando o governo acusa alguém é porque se trata de um inocente”, diz); nesse ínterim, ela vem a se tornar namorada de Bryant e, tal como informado nos créditos finais, sua esposa — evidenciando que, em última análise, é o amor que transmite a força motriz por trás do desenvolvimento dos personagens e da história — outro modo de dizer que é o Amor que move o sol e as estrelas, como canta o poeta¹.
Boa parte da vitalidade do filme se deve à influência de Nadya (Nina Arianda) sobre Bryant (Sam Rockwell), ainda que sua personagem seja secundária.O papel de Nadya é pequeno em termos de participação nas cenas, mas é fundamental para a real dimensão do que faz pulsar a vida do filme. Em contrapartida, no pólo diametralmente oposto encontra-se a sua má imitação, ou seja, a perversão do amor sexual em mero instrumento de poder e de interesse, representado na relação entre o policial Shaw (Jon Hamm) e a jornalista Kathy Scruggs (Olivia Wilde), criando o fogo pérfido que faz arder o inferno pessoal de Jewell.
Vocação para a esperança
Ainda que discretamente presente, é a realidade do amor que esvazia uma possível leitura ideológica do filme. A advertência de Bryant a Jewell anteriormente referida, por exemplo, provoca desconfiança contra o Estado, mas, por outro lado, ela permite deduzir que o mesmo se constitui em algo mais elevado (não apenas em poder, mas em justo propósito, em missão) do que as pessoas que o representam e exercem sua autoridade — como a própria dedicação de Bryant ao Direito comprova. (Esta questão suscita aspectos polêmicos da história norte-americana, potencializados pela inclusão da bandeira confederada em algumas cenas).
Em última análise, no entanto, é também uma questão que desemboca no amor — por que as pessoas se unem, submetendo-se a uma lei comum e a uma instituição coletiva, senão para proteger aquilo que amam?
Embora essa missão possa ser pervertida de vários modos, inclusive mediante o abuso do poder e a manipulação pública, como o filme e os fatos demonstram, prevalece o senso pessoal de Richard Jewell, que sempre sustenta sua consciência com a fortaleza do amor dedicado a proteger as pessoas.
Embora isso ocorra de modo quase imperceptível nesse caso, o cinema de Eastwood reafirma o mistério essencial que constitui a vida humana; reafirma que os indivíduos tomam decisões de um modo que não pode ser reduzido tão somente a leituras psico-sociológicas; que há sempre uma margem de liberdade nas ações pessoais, e que esse livre-arbítrio é de ordem metafísica, existencial, espiritual. Independente de em quê acreditamos, o fato mesmo de que decidimos agir é um enigma — enigma que pressupõe sempre alguma forma de esperança. Richard Jewell tem vocação para a proteção das pessoas, e não há jornalista, policial ou psicólogo que possa decifrar tal segredo. Há, contudo, a arte para nos conduzir à antessala desse mistério inescrutável.
Diferente do que acontece em vários filmes anteriores do diretor — em que cruzes, igrejas, padres, orações e bíblias entram na composição das cenas e na caracterização do universo existencial dos personagens —, em O Caso Richard Jewell o aspecto metafísico se faz presente de modo muito discreto e sutil, como em Sully, o que enfraquece o filme, principalmente no aspecto simbólico; as questões essenciais, no entanto, permanecem vigorando, como um baixo-contínuo que, não obstante ser quase inaudível, fornece a base para a melodia das ações: no que consiste a liberdade? Qual o sentido e o valor do sofrimento? Como reconhecer o mal, e como combatê-lo? Como lidar com a culpa e com o perdão? Qual o sentido último da bondade, da justiça, da verdade?
A ofuscante Khaty Scruggs (Olivia Wilde) é a personagem mais esquematizada, no sentido de corresponder às necessidades internas da trama, mas carecer de maior consistência. O roteiro, talvez por fidelidade aos fatos verídicos, perdeu uma grande oportunidade dramática ao não colocá-la em cena a sós com Jewell.Sinal de contradição
Se em Sully a conclusão é de que a vida humana, com toda a sua complexidade, imprevisibilidade e incerteza, é grande e inefável demais para ser testada em simuladores; de que a vida concreta exige ação madura e lúcida quando tudo o que escapa ao planejamento humano parece ser um abismo de caos; e de que quem não seguir as cartilhas pré-determinadas será perseguido; agora, em O Caso Richard Jewell, temos interessantes variações destas perspectivas, pois estamos diante de um protagonista que é o especialista que segue as pré-determinações, e é dessa forma que salva vidas, contrapondo-se àqueles (seguranças, policiais, profissionais e cidadãos) que relutam em seguir os protocolos de segurança, pois lhes parece um exagero.
Por outro lado, Jewell não preenche os requisitos de uma suposta heroicidade autêntica, conforme os perfis socialmente pré-concebidos — aparenta ser convencional demais, servil em demasia, fisicamente insignificante, excessivamente modesto —, para o que a sua inegável vocação concorre em atrair suspeitas. Apelidado de “radar” por seu amigo que reconhece sua aptidão, a vocação do protagonista parece ser a maior pedra de tropeço da opinião pública e dos investigadores hostis, que instrumentalizam o sonho de tornar-se policial e de trabalhar na proteção das pessoas como sinal de uma ambição descabida ou inadequada ao seu suposto perfil.
Se o destino de Jewell é o mesmo do comandante do avião que pousou em pleno Rio Hudson (passar de herói a vilão num estalar de dedos) não é por não seguir as regras pré-determinadas no momento da crise, mas porque no reino da desconfiança que ganha cada vez mais terreno no mundo contemporâneo, confiar na força silenciosa da inocência e permitir-se manter um coração sereno e esperançoso é sinal de intolerável contradição.
Como já sugerimos, Bryant é quem vai conduzir Jewell no duro amadurecimento nessa terra desolada, incentivando-o a revidar — postura simbolizada no diálogo sobre o significado de quid pro quo, num primeiro momento, e mais tarde na cena em que o protagonista se enfurece contra Bryant, por se sentir incompreendido e até desrespeitado diante da insistência do seu advogado em considerá-lo excessivamente submisso.
O que Eastwood nos mostra é um homem acuado e exausto, que perde a esperança no bom senso e na compreensão alheia, e decide ceder à proposta de revide do seu advogado. Quando Jewell expressa o seu lamento por envolver a própria mãe (Kathy Bates) no circo midiático, fica evidente que, no mesmo momento em que ele começa a reverter a situação a seu favor, também acontece uma derrota no seu íntimo. Neste paradoxo está toda a tragédia do personagem.
Ao aceitar participar do circo midiático para influenciar a opinião pública, expondo inclusive sua mãe (Kathy Bates), fica evidente que o drama do protagonista extrapola as circunstâncias, pois a luta por preservar a dignidade e a inocência revela a tragédia que está no cerne da própria natureza humana.Apologia humilhada
Ao expor à sua mãe e a si mesmo diante das mesmas câmeras que o trucidavam, sentimos que Jewell cede ao espírito mesquinho que domina o cenário social. Perde-se aí alguma parcela inestimável de dignidade e integridade, como tão eloquentemente soube expressar Sócrates na sua célebre Apologia, quando se recusa a defender-se através da manipulação sentimental perante a acusação caluniosa; “teríeis adorado ouvir meus gemidos e lamentos”, diz o filósofo aos seus juízes, não por orgulho ou arrogância, mas pela fidelidade à verdade e ao modo mais autêntico de viver, um verdadeiro heroísmo espiritual.
Trata-se, é verdade, de um revide legítimo, defensável, justificado; não obstante, significa a perda da inocência de Jewell (não jurídica, mas existencial) e mesmo da sua liberdade interior, já que se obriga a jogar o jogo do “toma lá, dá cá” (um quid pro quo às avessas), contra a sua vontade. Jewell pode ter sido formalmente inocentado, mas algo se rompeu no seu coração, algo no mundo parece estar irremediavelmente perdido e decaído — e sua consciência se depara dolorosamente com esta atroz revelação.
A tragédia, na verdade, extrapola o âmbito pessoal do protagonista e se abate sobre toda uma nação, sobre toda a humanidade, mesmo; pois, como pergunta Jewell aos investigadores, quem, a partir de agora, vai seguir o protocolo de segurança, avisando sobre uma mochila suspeita, por exemplo, se isso irá automaticamente incriminar quem a encontrou? Significa dizer: quem vai assumir a responsabilidade de ser um protetor ou benfeitor, se ninguém mais acredita na virtude heroica? Se a desconfiança é uma crença tão bem sucedida em nossos tempos, qual o destino da virtude senão o vilipêndio? Mais do que um problema dos nossos tempos, não refluem estas perplexidades para a sempiterna tragédia da condição humana, como dão exemplares testemunhos a vida e morte de Sócrates e de Jesus Cristo? Para seu próprio benefício, Jewell aprendeu que toda a glória do mundo não passa de ilusão; para seu desconsolo, entretanto, aprendeu que sem alguma ilusão não se sobrevive neste mundo.
O que talvez tenha se agravado em nossos tempos, nesse sentido, é que o quid pro quo parece ter sido alçado à condição de virtude, em vez de mero instrumento de conveniência e de negociação com os poderes do mundo. “Uma mão lava a outra”, quando o que a virtude deveria almejar é que uma mão não saiba o que faz a outra — única perspectiva que permite crer na superação da reciprocidade da violência, por exemplo. Intuitivamente, Jewell sabe que o terrorismo é um fruto extremado e pervertido do quid pro quo, por isso um dos raros momentos em que perde a calma e o controle é quando percebe, diante da obstinação de Bryant, que será necessário reagir, revidar, contra-atacar “as duas forças mais poderosas do mundo: o governo dos Estados Unidos e a mídia”, como diz o advogado.
A construção visual mantém o padrão econômico e eficiente dos filmes mais recentes de Eastwood, ao custo de realizar pouquíssimas cenas que se mantenham vivas na memória.Doce metafísica
Não vemos Jewell descontrolado ou nervoso no momento crítico do atentado, nem diante das calúnias da mídia e do abuso da polícia, nem no teste com o detector de mentiras, nem mesmo quando sofre problemas cardíacos, mas o vemos trêmulo e irado quando compreende que seu amigo e advogado o censura por ser submisso, servil, dócil, cortês — características que se tornam condenatórias no reino deste mundo —, quando finalmente se dá conta de que o seu heroísmo espiritual chegou ao limite.
A consumação desse drama ocorre quando Jewell recebe a notícia de que não é mais alvo da investigação: voltamos a vê-lo trêmulo e transpirando, momento em que expressa seu alívio rindo, chorando e comendo um doce com sofreguidão, tudo ao mesmo tempo. É a melhor cena do filme, pois ali está consumada a postura que teve de adotar, ao mesmo tempo enérgica e intensa (devorando o lanche com avidez), e dócil e resignada (está apenas comendo um doce, afinal). Nessa altura dos acontecimentos, somos levados a concordar com a provocação poética: “Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”.²
Notas:
¹ Dante Alighieri n’A Divina Comédia. ▲
² Tabacaria, poema de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa).
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