Em busca de um gesto que deixe de lado todo cálculo
Publicado no site Persona Cinema em 04/02/2020

“Não temos grande culpa pelos nossos casamentos fracassados. Vivemos em meio a alucinações, e essa armadilha especial é preparada para nos apanhar pelos pés, e nela caímos todos, cedo ou tarde”. (Ralph Waldo Emerson¹)
Próximo ao final de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), o casal de protagonistas ouve as respectivas gravações dos áudios em que um fala do outro, repletos de rancor e desgosto. O que seria um instrumento para uso restrito da clínica que intermediava a separação conjugal acaba por cair nas mãos dos clientes. Assim, inadvertidamente, Joel (Jim Carrey) ouve a descrição dos seus irritantes defeitos pessoais pela voz de Clementine (Kate Winslet), e vice-versa. São cenas de um triste constrangimento para ambos, abalados com a súbita revelação do que seus parceiros realmente pensavam, mas não diziam um ao outro, com os requintes de crueldade próprios do ressentimento e da mágoa de um relacionamento fracassado. No desenrolar da história, entretanto, é nesse ponto crítico que os personagens são desafiados se olharem com franqueza, a se aceitarem e perdoarem; é nesse ponto crítico que o rancor de uma paixão esvaída se abre para a possibilidade de um amor renovado, o que proporciona ao final do filme uma inspiradora perspectiva de esperança.
O mesmo recurso narrativo e a mesma perspectiva de esperança marcam a abertura de História de um Casamento (dirigido e roteirizado por Noah Baumbach, 2019), em que, por meio de uma narração em off, ouvimos, respectivamente, Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson) dizendo o que pensam um do outro. Aqui, contudo, o rancor e a mágoa não são expressados, pois, como ficamos sabendo em seguida, trata-se de uma sessão de terapia para casais em separação, em que são instados a escrever e ler sobre as qualidades de seus parceiros.
Ocorre que Nicole se recusa a atender à proposta de ler em voz alta o que escreveu, impedindo, assim, que Charlie também fizesse sua leitura, o que leva a intermediação à ruína — derrubando junto a perspectiva de esperança na reconciliação do casal. Assim, somente nós, espectadores, ficamos sabendo do teor das suas respectivas anotações, que constituem o que é narrado na abertura. Embora sejam frases muito simples e descritivas, se tornam tocantes quando conjugadas às imagens que ilustram a rotina do casal com seu filho Henry (Azhy Robertson), em momentos banais que se revestem de uma beleza singela. Com tal artifício narrativo, Baumbach inicia o filme dividindo um segredo com o espectador, criando uma cumplicidade que vai se tornar cada vez mais comovente à medida que a história se desenvolver, chegando ao seu ápice na revelação das anotações de Nicole para Charlie e Henry.
Não sabemos como as anotações de Nicole a respeito de Charlie vão parar nas mãos de Henry, se por acaso ou não, mas é inadvertidamente que Charlie toma conhecimento do texto através do filho. O que interessa, contudo, é que as anotações foram guardadas por Nicole, contrariando todas as expectativas criadas em torno da sua atitude recalcitrante desde a cena da sessão de terapia. Se a abertura do filme já era cativante pela cumplicidade criada com o espectador em torno daqueles momentos graciosamente triviais vividos entre Charlie e Nicole; se o desenvolvimento de certa forma trágico da história — pois as ações vão se tornando cada vez mais beligerantes, à revelia da vontade do casal, como se um mecanismo jurídico intangível moesse as esperanças num destino infernal —, se essa tragédia coloca toda a singeleza sob a amarga perspectiva da angústia e da frustração; se todos esses elementos culminam na leitura emocionada de Charlie, que nos deixa diante da perplexidade de testemunhar a paradoxal fragilidade-fortaleza do amor, então o texto de Nicole é o grande trunfo narrativo que o diretor e roteirista criou para sustentar seu filme e para se aproximar intimamente do público.
Mais do que um detalhe fundamental, a criação de tal artifício ganha relevância diante do quadro mais amplo da obra cinematográfica de Baumbach, que frequentemente exagera no despojamento narrativo e estético, caracterizando um estilo que busca uma aparente espontaneidade, casualidade, simplicidade, ingenuidade, mas que se situa constantemente no limite da banalidade, da frivolidade, do simplório, do perfunctório. Em História de um Casamento o diretor alcançou maior equilíbrio entre a condescendência com as errâncias caprichosas dos personagens, a criação de expectativas dramáticas e as estruturas narrativas — assim como as referências ao cinema de Bergman sinalizam para uma busca por maior cuidado com a imagem e por aprofundamento na interioridade dos personagens.
Desde a primeira imagem, fica sugerido que a trajetória dos personagens será também a de uma busca por suas “personas”, seus cenários e figurinos — em que cidade vão viver, qual fantasia vão escolher no Halloween, como vão decorar seus lares, como vão ensaiar suas falas no tribunal, etc. O jogo cênico extrapola o âmbito profissional dos personagens e invade suas vidas privadas, fazendo deste um filme mais rico e elaborado dentro da obra de Baumbach.Crime sem solução
Em certo momento, o advogado Bert (Alan Alda) diz a Charlie que o processo de divórcio envolvendo a guarda de filhos é “uma das coisas mais difíceis do mundo, como uma morte sem cadáver”. O que parece um exagero num primeiro momento, se mostra atrozmente verdadeiro à medida que vemos o destino da tentativa do casal em manter a amizade durante o processo.
O pessimismo de Emerson (1803–1882) na citação em epígrafe nos leva a pensar no que consistem as alucinações que formam a vida humana, e se essa nossa condição nos isenta de culpa, especialmente no fracasso dos casamentos. Outro diálogo entre Charlie e Bert ilustra o problema: “Me sinto como um criminoso”, diz Charlie. Bert responde, “Mas você não cometeu crime nenhum”. “Não é o que parece”, conclui Charlie. Há na própria condição humana uma limitação, uma tensão, um desvio — “Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero”, como escreve o apóstolo (Rm 7, 19). A tragédia que arrasta as nossas vidas com suprema força impessoal já está incrustada na própria condição humana, como uma semente oculta no íntimo de cada um.
É provável que Emerson não tivesse nada disso em mente quando se referiu às alucinações em que vivemos, mas o que importa aqui é notar como os rumos relativamente trágicos que as vidas de Charlie e Nicole assumem são também uma expressão de seus infernos pessoais, por assim dizer, de suas frustrações inconfessas, de suas carências interiores, de suas expectativas orgulhosas — vindo à tona na cena da briga — que, mais cedo ou mais tarde, extrapolam o âmbito individual e acabam por criar uma teia de situações lamentáveis que dão a impressão de que o mundo conspira contra eles. O casamento, como expressão do mais profundo comprometimento pessoal, bem como de inserção na esfera social, é a arena por excelência dessas tensões.
No caso específico de Charlie e Nicole, relativamente jovens, bem-sucedidos, prósperos, belos, profissionalmente ambiciosos, o que mais os ameaça é a perspectiva da mediocridade. A alucinação principal que afeta esse casal é o receio de que a vida conjugal, com suas incontornáveis trivialidades, cubra o brilhantismo de suas carreiras artísticas com uma indesejável sombra.
Sereno por um segundo
O cinema de Baumbach, de modo geral, é marcado por uma ambiguidade fundamental: sentimos o gosto adocicado enquanto o saboreamos — acreditamos na vida simples, descomplicada, engraçada, vemos graça na frivolidade, na jovialidade, até na imaturidade —, mas adivinhamos o sabor acre que sutilmente vai dominar o fundo da experiência — a vida desiludida, frágil, incompreendida, complicada, insatisfeita. Vem sobretudo de Woody Allen essa atmosfera em que não há motivo para dar muita importância às coisas, embora a lucidez force a conclusão de que, se nada tem muita importância, a vida mesma fica parecendo uma bobagem. Reconhecemos que as piadas nos ajudam a viver, mas chega um ponto em que elas perdem a graça — situação que ocorre concretamente em uma cena de História de um Casamento, filme que adquire uma gravidade mais pronunciada do que estamos acostumados a ver no cinema do diretor.

Nora (Laura Dern), a advogada mefistofélica de Nicole, acaba forçando a saída de cena de Bert (Alan Alda), o compassivo advogado de Charlie. O admirável desempenho dos coadjuvantes confirma o talento de Baumbach na direção de atores.Por contraste, as coisas simples da vida se revestem ainda mais de uma beleza insuspeita: ler uma historinha para o filho na cama, cortar o cabelo, fechar o portão, amarrar os cadarços, dizer boa noite. Na relação cada vez mais problemática de Charlie e Nicole, assistimos o valor inestimável de momentos simples que começam a se inviabilizar. Referindo-se ao estilo da romancista Jane Austen, as palavras de Virginia Woolf servem para iluminar parte do que o cinema de Baumbach busca realizar:
“Mas, da frivolidade, do lugar comum, suas palavras irrompem subitamente plenas de sentido, e o momento, para ambos, torna-se um dos mais inesquecíveis em suas vidas. Ele se completa; brilha; incandesce; projeta-se à nossa frente, profundo, vibrante, sereno por um segundo; no instante seguinte, a empregada passa, e este lampejo, em que toda a felicidade da vida se encerra, suavemente se reduz, para fazer parte de novo do lufa-lufa da existência cotidiana.” ²
A empregada que passa e volta a ancorar a cena na realidade cotidiana remete para a característica do cinema de Baumbach que procura incorporar a incoerência e a imprevisibilidade da vida, fragmentando as cenas com diálogos interrompidos, frases que ficam pela metade, perguntas que ficam sem resposta, conversas truncadas, ações repentinas e despropositadas, enganos e atos falhos, como sói acontecer fora dos roteiros.
Nesse sentido, um recurso cênico bastante explorado pelo diretor, especialmente em História de um Casamento, é o do personagem que fala enquanto se desloca, e continua falando enquanto vai até outro aposento ou enquanto permanece fora da cena, o que provoca algum estranhamento. Com que propósito? Além de emular a espontaneidade e imprevisibilidade da vida cotidiana, pode-se apontar para uma busca por descontrair a mise-en-scène, não num sentido vanguardista, radical ou rebelde, mas irônico, pois voltado contra o próprio métier das artes cênicas que constituem o universo ficcional dos personagens.
Essa impressão é reforçada por diversas cenas em que as propriedades cênicas se confundem com as rotinas cotidianas, como quando os atores comentam a separação de Charlie e Nicole em pleno ensaio; quando selecionam figurinos que na realidade são fantasias de halloween; quando a irmã e a mãe de Nicole querem ensaiar a simples tarefa de entregar um envelope a Charlie; quando Nicole lamenta não conseguir chorar artificialmente no palco, para no instante seguinte chorar sozinha no quarto; quando Charlie monta a decoração do seu apartamento com o auxílio de uma cenógrafa, para causar boa impressão na assistente social que vai observar a sua rotina doméstica.
Contraposto à descontração da mise-en-scène (que, a propósito, é alvo de um comentário irônico no filme anterior do diretor, Os Meyerowitz) e de sua incorporação irônica ao universo ficcional dos personagens, o tratamento dado ao conflito dos protagonistas de História de um Casamento é caracterizado por uma honestidade invulgar, que conjuga a aparência cool do casal de artistas nova-iorquinos com suas já comentadas frustrações subterrâneas, resultando num retrato a um só tempo terno e cru, cândido e contundente — “um filme pleno de sinceridade”, como definido na belíssima crítica de João Araújo.

A vida num suspiro
Se o clímax dramático do filme se dá na cena da intensa discussão do casal, e se o arco narrativo se consuma emocionalmente na leitura das anotações de Nicole por Charlie, a cena mais representativa dos elementos estéticos aqui comentados é a de Charlie cantando “Being Alive” no bar. Não se trata de uma interpretação artisticamente bem feita, afinal Charlie não é um cantor; não se trata de um desempenho profissional e apurado, mas de um improviso do personagem, um ato impulsivo mas, não obstante, extremamente expressivo e sincero, que, graças ao talento de Adam Driver, oferece uma tocante interpretação sobre o sentido da letra e de sua relação com a situação do personagem.
Artigo publicado no Los Angeles Times contextualiza a origem dessa canção da Broadway, do premiado musical Company (1970), de Stephen Sondheim, e esclarece o sentido da sua relação com o que Charlie sente. Analogamente ao efeito de História de um Casamento na obra de Baumbach, o musical foi elogiado por sua abordagem franca, que rompia com o padrão de leveza e amenidade dos espetáculos da Broadway, através de uma camada de humor que apenas na superfície era divertida, pois no fundo pungia o público com as dúvidas e tormentos a respeito do amor e do casamento.
Conforme o artigo, a canção original é de um homem solteiro que se defronta com a perspectiva do casamento — num primeiro momento com ceticismo, quando canta sarcasticamente “alguém que te agarre perto demais, alguém que te machuque muito profundamente, alguém que sente na sua cadeira, que te faça perder o sono” etc, mas que, após os versos de transição sobre a solidão, assume um tom ligeiramente mais grave e uma perspectiva pessoal e imperativa: “alguém me agarre perto demais, alguém me machuque muito profundamente” etc, sutileza linguística que pode passar despercebida, mas que é fundamental para compreender o personagem.
A ironia é que, no caso de Charlie, não se trata de alguém se abrindo à perspectiva do casamento, mas justamente do oposto, o que empresta à cena do filme um sabor agridoce, acentuando a frustração pessoal do protagonista e desfazendo qualquer possibilidade de idealização, mas também afirmando a realidade ambivalente do amor conjugal. Mesmo divorciados, ainda vemos Nicole escolhendo o que Charlie vai comer, cortando o seu cabelo, amarrando os seus cadarços. Como escreveu um crítico citado no artigo, a cena de Charlie cantando “é algo próximo do sublime: um homem que conseguiu abraçar sua dor e se sentir mais vivo, e até esperançoso, por isso”.
Nota-se que, em certa medida, Baumbach inspirou-se no musical de Sondheim para atingir camadas mais profundas da interioridade dos protagonistas, outro fator que parece ter contribuído para o êxito de História de um Casamento, sobretudo para dar densidade à honestidade moral da sua abordagem. O longo suspiro de Charlie ao final de “Being Alive” é um gesto de concretização desses aspectos, entre o alívio e a frustração.
No momento em que desabafava com os amigos sobre os problemas do divórcio, na mesa do bar, Charlie ouve os acordes iniciais de “Being Alive” e vai ao microfone cantar, na mais brilhante cena em que as propriedades cênicas se confundem com a vida pessoal dos personagens. É uma das poucas situações que nos permite avaliar a relação interior e mais profunda dos protagonistas com a arte, e não apenas superficialmente, como meio de sustento.Outra canção do musical Company é interpretada no filme, a descontraída “You Could Drive a Person Crazy”, dessa vez por Nicole, sua irmã e sua mãe. As duas cenas musicais, recurso que é recorrente na obra de Baumbach, condensam o que está no âmago do seu cinema, expondo os personagens de um modo em que a ternura e o ridículo se completam, se amalgamam, se confundem. Essa exposição (musical ou não), a um só tempo irônica e honesta, é utilizada com parcimônia em História de um Casamento, evitando a excessiva indulgência com as idiossincrasias dos personagens, que comprometem alguns longas anteriores. No quesito musical, a propósito, vale mencionar o êxito da cena de Os Meyerowitz em que pai e filha tocam piano juntos e cantam uma música de autoria própria, talvez o exemplo mais bem acabado de como a ternura e o ridículo andam juntos e se tornam pungentes na obra de Baumbach.
O gosto da saudade
Se a busca por aproximar a obra cinematográfica da espontaneidade da vida impõe sérios problemas estéticos e narrativos (sobretudo nos longas anteriores do diretor), nos momentos em que o êxito é atingido a fruição do espectador é recompensada com um gosto raro. O segredo está em que acabamos nos afeiçoando e nos apaixonando pelos personagens, inclusive pelos seus defeitos, até mesmo quando o filme não nos parece tão bom.
É como se Baumbach fizesse cinema essencialmente para os personagens, deixando em segundo plano todo o resto — o enredo, a técnica, a imagem, o público. Não por acaso, a qualidade técnica que prevalece é sempre a direção de atores, que visivelmente os deixa à vontade e confiantes, rendendo interpretações impecáveis de todo o elenco, inclusive coadjuvantes.
Se é verdade que a obsessão de Baumbach pelos personagens assume o risco de resultar em filmes estruturalmente frágeis e errantes, também é verdade que ganha força na sua capacidade de aproximação com o público, na vida encarnada na tela, na impressão vívida de que os personagens têm toda uma história pessoal — manias, vícios, temores, lembranças — que precede e ultrapassa o que o filme mostra.
O maior trunfo de Baumbach é nos deixar com saudade dos personagens: queremos ver de novo Danny (Adam Sandler) e Eliza (Grace Van Patten) procurando vaga para estacionar (Os Meyerowitz, 2017), ver novamente Bernard (Jeff Daniels) e Joan (Laura Linney) separando os livros após o divórcio (A Lula e a Baleia, 2005), rever aquela cara que Frances (Greta Gerwig) faz, de quem está tentando fazer o melhor que pode, mas sabe que isso não é o suficiente (Frances Ha, 2012). Não é essa uma característica típica das séries, nos cativar através da familiaridade com os personagens? Talvez haja aí uma indicação da origem do interesse da Netflix em produzir o cinema de Baumbach, como é o caso dos seus dois filmes mais recentes.


Adam Sandler e Grace Van Patten na melhor cena de “Os Meyerowitz”. Jeff Daniels e Laura Linney em outra história de divórcio (“A Lula e a Baleia”). Greta Gerwig e Adam Driver em “Frances Ha”, filme este que sofre muito dos problemas do cinema de Baumbach.Outra queda?
Para encerrar, voltemos ao tema de História de um Casamento, retomando os aspectos já abordados, especialmente a relação entre as frustrações pessoais do casamento e o mecanismo trágico que parece fazer o mundo conspirar contra — pedindo licença ao leitor para acrescentar uma longa citação do recém-falecido filósofo britânico Roger Scruton:
“Exatamente por vivermos num mundo morbidamente anti-heroico — um mundo de cálculos de custo e benefício, em que deuses e heróis não têm lugar — somos levados a enxergar nossa própria existência como uma espécie de erro cósmico. Se ela tem sentido, só pode vir de um gesto que deixe de lado todo cálculo, que imprudentemente despreze tanto o custo quanto o benefício e que livremente abrace sua própria absurdidade. § No amor erótico aspiramos a essa condição, e nossas vidas são brevemente irradiadas pela felicidade, enquanto o apreço físico e mental de outra pessoa preenche nossos corações com um senso de liberdade e de singularidade. Mas a devoção se enfraquece, o ser amado perde seu caráter de destino exclusivo, e pouco a pouco vêm-nos ideias de versões melhores e de negócios mais vantajosos. O amor se degenera em custo e benefício, e fica parecendo apenas outra versão do erro primal.” ³
Essa reflexão de Scruton confirma o pessimismo de Emerson, confirma a existência das alucinações que formam a vida humana, confirma a realidade do desgaste da relação conjugal de Charlie e Nicole. Contudo, também abre a perspectiva de uma superação, de uma esperança, de “um gesto que deixe de lado todo cálculo”, como os pequenos atos de confiança que ainda sobrevivem entre o casal, mesmo em pleno inferno jurídico de custos e benefícios em que adentram.
Se, conforme Emerson, o casamento é uma armadilha preparada para nos derrubar pelos pés, então Nicole amarrando os cadarços de Charlie, na cena final, é um daqueles gestos gratuitos que, se não podem evitar toda a tragédia da vida, ao menos redimem o seu drama e nos fazem continuar andando com confiança e esperança, mesmo diante das coisas mais difíceis do mundo.
Notas:
¹ Do ensaio Ilusões, citado por Harold Bloom em Onde encontrar a sabedoria?, ed. Objetiva, 2009, pág. 242. ▲
² O Leitor Comum, ed. Graphia, 2007, pág. 67. ▲
³ Coração devotado à morte: o sexo e o sagrado em Tristão e Isolda, de Wagner, ed. É Realizações, 2010, pág. 18. ▲
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