O retrato de Anna Kariênina

Ensaio sobre o clássico de Tolstói

Publicado na Unamuno em 10/11/2022
Félix Vallotton

Ao contrário do que se costuma pensar, o leitor experiente inveja o leitor inexperiente; é que este ainda tem pela frente numerosos universos a descobrir, tantos prazeres incalculáveis a experimentar, todo um caminho fascinante a percorrer entre os maiores clássicos, enquanto aquele lida com a nostalgia do tempo perdido e vacila diante da impressão de que a vida nunca voltará a ser tão generosa. Por outro lado, sabe-se que um verdadeiro clássico é redescoberto a cada releitura e que a sua voz nunca cessa de soar, sempre igual e sempre nova.

Todas as histórias de amor são parecidas, mas as histórias tolstoianas são de amor a modo próprio. Ler ou reler Anna Kariênina (publicado originalmente em 1878, aqui citado na edição de 2021 da Editora 34, traduzida por Irineu Franco Perpetuo) é uma dessas grandes descobertas da vida, e embora muito já tenha sido dito a respeito, é sempre possível renovar o entusiasmo diante de um clássico dessa magnitude.

Para além de todos os conhecidos méritos artísticos, psicológicos, morais e históricos do romance, o que talvez ainda não tenha sido devidamente enfatizado é a “profundidade de imaginação, a capacidade espiritual graças à qual as noções suscitadas pela imaginação se tornam tão reais que exigem correspondência com outras noções, e com a realidade”, como diz o narrador sobre o que inexiste em Aleksei Aleksândrovitch, marido de Anna — uma qualidade que remete para a relação da arte e especialmente da ficção com a realidade, culminando no encontro entre Anna e Lióvin. Continue Lendo “O retrato de Anna Kariênina”

Travis no cinema ou Kim Min-hee no deserto

Publicado em 25/07/2022 no Estado da Arte e no À pala de Walsh, para a série de textos ‘Diálogos’, cuja proposta é abordar a oralidade e os diálogos no cinema.
Travis (Harry Dean Stanton) em “Paris, Texas”

Tem dias em que a linguagem é sentida como se fosse uma jaula, da qual gostaríamos de escapar ultrapassando os limites das palavras e penetrando em algum reino oculto supra verbal, onde tudo fosse ao mesmo tempo intuitivo e misterioso, contemplativo e sensorial, livre e envolvente. Dessa jaula não se escapa a não ser por meio das artes (ainda que também atreladas às suas respectivas linguagens), especialmente em tempos de comunicação saturada.

Como em De Olhos Bem Fechados, em que o diálogo é proscrito por uma realidade secreta paralela, o cinema oferece um vislumbre dessa lanterna mágica ao mesmo tempo em que interpela o espectador, solicita uma garantia de atenção plena, questiona o conhecimento do código: seja Fidelio, Rosebud ou outra que tivermos aprendido, ainda é uma palavra que precisa ser pronunciada para que se abram as portas desse castelo fascinante e aterrador. Outras vezes nos deparamos com alguma frase lapidar que encerra um universo inteiro em si, batendo a porta bem no nosso nariz: “Forget it, Jake, it’s Chinatown”; ou nos colocando diante de um espelho a dialogar com nossa própria alienação (“You talking to me?”); ou, quando a nostalgia é irresistível, “We’ll always have Paris”. Continue Lendo “Travis no cinema ou Kim Min-hee no deserto”

De espectadores a protagonistas: “Drive My Car”, de R. Hamaguchi.

Publicado no Estado da Arte em 15/06/2022

Ora emprega-se o substantivo esteta para caracterizar o criador de belas (e geralmente enganosas) imagens, ora para evocar afetações vanguardistas ou formalistas, mas, para além desses sentidos mais vulgares e depreciativos, o melhor esteta é aquele que expressa sobretudo a noção de que o ficcional precisa de tanta verdade quanto o real, de que necessita do mesmo grau de atenção, de entrega, de generosidade, de confiança e de desconfiança, para que o seu universo possa crescer e se expandir, até de fato se tornar “a coisa mais próxima da vida” (nas célebres palavras de George Eliot).

Diálogos em que se fala sobre como a literatura e a ficção solicitam plena atenção e dedicação para que sejam vivenciadas como universos autônomos e autênticos, ou em que se fala sobre o valor dos detalhes que não costumam ser percebidos; situações em que a arte invade a realidade, borra os seus contornos e abre frestas para outras camadas — essas são algumas características que vêm sendo exploradas na obra cinematográfica de Ryûsuke Hamaguchi, com êxito crescente a cada novo filme. Enfatizando criativamente o ato de fruição estética, o cineasta japonês tem se revelado um dos grandes estetas do cinema contemporâneo (leia-se também o nosso ensaio sobre o seu longa anterior). Continue Lendo “De espectadores a protagonistas: “Drive My Car”, de R. Hamaguchi.”

A piedade das Musas: Escutando Nina Simone

Publicado em Unamuno, em 11/04/2022.

 

Das muitas formas que a alegria assume, a de cantar os seus próprios infortúnios, desgraças, desilusões e derrotas talvez seja a mais inusitada. Qualquer que seja a tristeza da canção — ou de outra forma artística — , ela é superada pela alegria da criação, pelo júbilo de saber dar voz a uma falta, que nesse momento mesmo se faz sentir como uma completude.

Não há nenhuma situação tão terrível que não possa ser aliviada por uma pausa momentânea do espírito para contemplá-la esteticamente” — escreve o filósofo George Santayana em O Sentimento da Beleza — “Assim, o próprio sofrimento deixa de ser apenas dor; algo doce lhe é acrescentado mediante a nossa reflexão. As cenas mais tristes podem perder a sua amargura por causa da sua beleza. Essa função constitui, por assim dizer, a piedade das Musas, que socorrem a sua mãe, a Vida, e recompensam-na com o conforto de sua presença contínua por tê-las criado.

Nessa pausa momentânea do espírito, ouve-se o canto doloroso com a consolação de quem encontra a expressão de uma solidão que julgava só sua. Quem os males canta, não necessariamente os espanta; antes, converte-os numa espantosa solidão compartilhada com seus ouvintes. Juntos no canto, porém não mais encurralados, assim descobrimos o segredo do blues, por excelência, que é também o segredo da insuspeitada e sutil alegria provocada pelo samba triste, pela lírica poética, pela prosa intimista, pelas formas e cores de boa parte das grandes criações artísticas.

Dos mais agudos clamores aos mais graves lamentos, a música de Nina Simone (1933–2003) realiza essa alquimia espiritual com generosa intensidade, frequência e versatilidade, como o ouvinte percebe, por exemplo, nas quatro faixas a seguir, que ilustram, cada uma a seu modo, distintas abordagens musicais: Continue Lendo “A piedade das Musas: Escutando Nina Simone”

Finge tão completamente: “Roda do Destino”, de R. Hamaguchi

Publicado no Estado da Arte em 04/03/2022
Meiko (Kotone Furukawa)

Somos produtos defeituosos”, dizem Meiko (Kotone Furukawa) e Kazuake (Ayumu Nakajima), rindo, no momento em que quebram momentaneamente o pico de tensão do primeiro episódio de Roda do Destino (Gûzen to sôzô, dir. Ryûsuke Hamaguchi, 2021), em meio a uma crise de ciúmes repleta de manipulação emocional e de diálogos deliciosamente capciosos. Quando, na sequência, vemos Meiko retrocedendo dentro de uma cena, como se corrigisse a escolha impulsiva que fizera, a estrutura mesma do filme se abre para incorporar os ditos produtos defeituosos no seu interior e dar-lhes nova oportunidade.

Processo semelhante ocorre nos dois outros episódios, embora por meios distintos — a simulação que, falhada, escreve certo por linhas tortas (ou será o contrário?), e o equívoco que leva à representação de personas em pleno ambiente da realidade (seja lá o que isso signifique). Há uma aura misteriosa de indefinição quanto aos limites entre realidade, ficção, imaginação e desejo, que não é sufocada pela engenhosidade dos longos diálogos, incorporando-se no fluxo das cenas sobretudo através da exploração visual de vidraças — ora isolando o universo dos personagens em aquários, ora ampliando-os por meio de reflexos imprecisos, ora absorvendo limites em transparências. Continue Lendo “Finge tão completamente: “Roda do Destino”, de R. Hamaguchi”