10 filmes preferidos de 2024

Lançados nos cinemas de Porto Alegre neste ano, em ordem de preferência.


1º) Folhas de Outono (Kuolleet lehdet, dir. Aki Kaurismäki)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Confesso que não conhecia nenhum dos filmes do diretor finlandês (o que decerto facilitou meu deslumbramento), e portanto não tinhas grandes expectativas. Reforço o coro dos que ficam cativados pelo olhar de Kaurismäki sobre essas figuras solitárias, desajeitadas, apagadas, falidas, e pelo coração genuíno que transparece por trás de um aparente artificialismo frio e irônico. Lembro especialmente do frenesi que percorria a sala de cinema na cena capital da reviravolta do protagonista ao ouvir as moças cantando e tocando no bar. (A propósito, o duo de irmãs se chama Maustetytöt, os seus discos são muito bons, e acabei me tornando um ouvinte frequente do pop irresistivelmente estranho delas, que cai como uma luva no filme e no estilo do diretor).

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Indicações II

1) Ensaio de Charles Yu sobre o filme In the Mood for Love (“Amor à flor da pele”, dir. Wong Kar-Wai, 2000):

https://www.criterion.com/current/posts/7976-notes-on-in-the-mood-for-love

2) “Caminhando pela Flip com Roland Barthes”, ensaio de Marcelo Nunes:

3) Entrevista com Tamara Klink, falando inclusive sobre ficção, música, sonho. Por Paulo Lima.

Cada diário é infeliz à sua maneira: “CADERNO PROIBIDO”, de Alba de Céspedes

Publicado na Revista Unamuno em 09/11/2024

Publicada originalmente em 1952, a ficção Caderno Proibido (“Quaderno Proibito”, trad. Joana Angélica d’Avila Melo, ed. Companhia das Letras, 2022) permanece como um reconhecido triunfo de Alba de Céspedes (Itália, 1911-1997) quanto à expressão da condição social e existencial feminina, especialmente no que se refere às inúmeras concessões silenciosas que perfazem o cotidiano de mãe e esposa, bem como na pungente impossibilidade de ver reconhecida a sua vida interior mesmo pelos que lhe são mais próximos e íntimos. 

Narrado em forma de diário por Valeria Cossati, 43 anos de idade, cobre um período de cerca de seis meses entre o final de 1950 e o início de 1951, em Roma, num contexto de estagnação econômica diante da incerteza quanto à possibilidade de nova guerra, porém de acelerada dinamização das relações sociais, dos hábitos culturais e dos conflitos geracionais, evidenciados sobretudo na conduta dos dois filhos que iniciam a vida adulta. Dividindo-se entre o trabalho no escritório e a dedicação ao lar, Valeria se mostra bastante realista e modesta, não alimentando grandes expectativas típicas das heroínas dos romances clássicos. 

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Indicações I

1) Sobre a música Inverno (Adriana Calcanhotto), por Túlio Ceci Villaça:

2) Do mesmo autor, sobre Cazuza, Clarice Lispector, Cássia Eller, Legião Urbana:

3) The deracination of literature, ensaio de Mary Gaitskill: https://unherd.com/2022/06/the-death-of-literature

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Notas portenhas do subsolo: “O TÚNEL”, de Ernesto Sabato

Publicado na Unamuno em 31/05/2024
Anne Magill

Há esperança suficiente, esperança infinita – mas não para nós”. Sempre que me deparo com essa sentença atribuída a Kafka (em diálogo lembrado por Max Brod), penso em quem seriam os sujeitos; “nós” quem? A humanidade? Kafka e Brod? O autor e seus leitores? Os escritores? Os escritores que não publicam? Os judeus europeus? Os tchecos de língua alemã? Os funcionários de escritórios burocráticos? Os solteirões? Os frequentadores de bordéis? 

Com aforismo não se discute; sente-se ou não sua verdade, seu engenho, sua visão. Penso em diversos momentos na implacável lucidez de Kafka ao longo da leitura da formidável novela do argentino Ernesto Sabato, O túnel (“El túnel”, ed. Carambaia, trad. Sérgio Molina, 2023, publicado originalmente em 1948), como penso no parentesco do narrador-protagonista com os homens do subsolo criados por Dostoiévski. 

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“Um gosto de sol”: crônica sobre a enchente de maio de 2024

Publicado no blog Diário da Enchente em 28/05/2024

O que há de melhor em ser um habitante de Porto Alegre? Em diversos momentos me fiz essa pergunta, desde que me mudei para a capital. Costumava me dividir entre duas respostas: as salas de cinema e a orla do Guaíba (incluindo o parque Marinha). Acabei percebendo que, dependendo da programação, às vezes passava semanas inteiras sem ir ao cinema, ao passo que frequentar a orla e o Marinha é um hábito muito mais constante, praticamente diário, que me enche de gosto pela vida. Sempre sinto algo assim como uma bênção vendo o rio (ou lago) surgir amplo à minha frente, alargando o horizonte, soprando uma brisa refrescante, cintilando ao sol, mudando de tom diante das cores do poente, ou acolhendo generosamente a saraivada de gotas de chuva.

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