“Eu vi coisas que vocês não acreditariam”: dez cenas para a eternidade

dez cenas inesquecíveis que ilustram como o amor pelos filmes nos une ao coração da vida (parte 1 de 2)

Publicado no site Persona Cinema em 01/12/2019.
“Eu vi coisas que vocês não acreditariam”: o célebre início do breve monólogo interpretado por Rutger Hauer, potencializado pelo falecimento do ator, é inspiração para refletir sobre as relações entre diversos aspectos do cinema — visual, narrativo, simbólico, imaginativo, transitório, afetivo, entre outros.

No mundo do cinema, um dos fatos marcantes deste ano de 2019 foi a morte de Rutger Hauer, o ator que se notabilizou sobretudo por ter encarnado o inesquecível vilão de Blade Runner. Quando as redes sociais ficaram repletas de homenagens, quase sempre com imagens do monólogo da morte do seu personagem, foi possível constatar que essa cena se gravou com força incomum no coração e na memória do público — e comigo não foi diferente.

Surgiu daí o desafio auto-proposto de escolher minhas dez cenas favoritas do cinema, as dez cenas que mais mexem comigo, que não me abandonam, que são parte de mim. Clichê ou não, acredito que levarei essas cenas comigo para a eternidade; pensando bem, o que eu entendo por eternidade é, em certa medida, formado por essas cenas. Continue Lendo ““Eu vi coisas que vocês não acreditariam”: dez cenas para a eternidade”

O peso do silêncio: “Distante”, de Nuri Bilge Ceylan

um lento mergulho no silêncio e na solidão que nos habitam

Publicado no site Persona Cinema em 02/11/2019.
Mahmut (à esquerda) é o anfitrião de Yusuf (à direita), jovem parente do interior que chega em Istambul em busca de trabalho.

Distante (‘Uzak’, 2002), o filme que deu notoriedade ao cinema do turco Nuri Bilge Ceylan, não é do gênero em que o desenvolvimento narrativo tem proeminência, pois é conduzido principalmente pela fotografia e pelos cenários, por meio de uma lenta contemplação em que o cuidado com a imagem revela um aprumo irresistível. Não obstante, as suas propriedades formais se relacionam com a caracterização dos personagens de modo a levantar algumas questões acerca da natureza humana e da expressão artística, sobretudo a partir da solidão, do tédio e do vazio existencial.

Mahmut (Muzaffer Özdemir) é um fotógrafo divorciado que vive confortavelmente em um apartamento em Istambul, tornando-se anfitrião de Yusuf (Mehmet Emin Toprak), jovem parente que deixa o interior empobrecido para buscar emprego na grande cidade. Embora Mahmut tenha origem na mesma localidade do interior, os anos vividos em Istambul tornaram-no próspero, refinado, organizado e devotado ao trabalho, características opostas ao do jovem Yusuf, com seu jeito tosco, negligente e inculto. Convivendo no mesmo apartamento, a aproximação logo evidencia antagonismos, agravados pelo insucesso de Yusuf na procura por emprego. Por outro lado, as frustrações pessoais de Mahmut tornam-se mais expostas diante do olhar alheio, aprofundando a sua melancolia. Ambos passam muito tempo olhando TV e fumando, em gestos vazios que tão somente preenchem um tempo morto que pesa sobre o cotidiano. Continue Lendo “O peso do silêncio: “Distante”, de Nuri Bilge Ceylan”

Quando a velhice arruinar esta geração: “A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich

Amadurecer é vislumbrar o que persiste no tempo, e aceitar o que ele leva embora.

Publicado no site Persona Cinema em 13/10/2019.
O protagonista Sonny (Timothy Bottoms) com seus amigos Duane (Jeff Bridges) e Jacy (Cybill Shepherd)

“Tu, forma silente, arroja-nos ao sortilégio
Qual a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a velhice arruinar esta geração,
Permanecerás, em meio a outro infortúnio
Que não o nosso, amigo do homem, a quem proferes,
‘A Beleza é Verdade, a Verdade Beleza’ — isto é tudo
O que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber.”

(Versos finais de “Ode a uma urna grega”, de John Keats, em tradução de Alberto Marsicano e John Milton. Todos os versos doravante citados referem-se ao mesmo poema¹.)


“Será que eu tenho chance de fazer vocês se interessarem por John Keats?”, pergunta o professor antes de ler para a turma os versos finais de “Ode a uma urna grega”. Antes disso, ele havia discutido o sentido de “Ode a um rouxinol” com o único aluno que pareceu interessado, o filho do pastor local, que, no entanto, desaprovou o poema, argumentando que para o anseio pela eternidade bastaria a fé cristã. Enquanto isso, Sonny (Timothy Bottoms) olha janela afora e observa dois cães no cio. Há um contraste entre a gravidade dos versos de Keats e a modorrenta distração da turma, interligados, porém, por um silêncio que parece pairar sobre a cena, um silêncio em parte opressivo e desolador, em parte prenhe de vaga expectativa, que permanece latente ao longo de todo o filme A Última Sessão de Cinema (‘The Last Picture Show’, 1971) dirigido por Peter Bogdanovich. Continue Lendo “Quando a velhice arruinar esta geração: “A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich”

Você nunca entenderá se não olhar mais devagar: “Cortina de Fumaça”, de Wayne Wang

Como o exercício do olhar subverte e transfigura a aparente banalidade da realidade

Publicado no site Persona Cinema em 13/09/2019.
Auggie Wren (Harvey Keitel) é o proprietário da tabacaria no Brooklyn frequentada pelo escritor Paul Benjamin (William Hurt)

O perigo é baixar a pálpebra
entre o esplendor da realidade

e o desespero, essa falsa álgebra
que interpõe entre o ser e a vida
uma distância descabida.

É preciso olhar com cuidado,
lançar contra todo argumento
aquele olhar maravilhado
e novo, aquele olhar sedento
que subverte e transfigura.
O ser é a visão que procura.

(Bruno Tolentino, trecho de “A Balada do Cárcere”)


Possuidor do curioso charme do que se convencionou chamar de cinema independente norte-americano, Cortina de Fumaça (Smoke, 1995, direção de Wayne Wang e co-direção de Paul Auster) tem poucos cenários, modestos recursos cênicos, diálogos criativos, personagens secundários excêntricos e uma pitada de certo mistério, que, tudo somado e bem arranjado, conquistam rapidamente a simpatia do espectador. Quando o filme termina, no entanto, para além de toda simpatia e do prazer estético, fica-se imbuído de uma estranha alegria agridoce, não por sentimentalismo ou conveniências de um final feliz, mas pelo modo como o filme se abre para a ventura da vida, de como a arte se mostra permeável ao mistério do ser. É desconcertante que um filme tão despretensioso e até prosaico consiga alcançar essa dimensão. Continue Lendo “Você nunca entenderá se não olhar mais devagar: “Cortina de Fumaça”, de Wayne Wang”

Você não está respirando: “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood

A agônica luta pela vida no coração dos desgraçados, desenraizados e abandonados

Publicado no site Persona Cinema em 31/07/2019.
O treinador Frankie (Clint Eastwood) e a boxeadora Maggie (Hilary Swank)
A ilha lacustre de Innisfree

W. B. Yeats (tradução de Paulo Vizioli)

Vou levantar-me e ir agora, e vou-me para Innisfree,
E lá farei uma choça com barro e vimes torcidos;
Terei feijão, nove filas; e abelhas terei ali;
E estarei só, na clareira entre os zumbidos. 

E lá vou achar a paz, paz que pinga devagar,
Que pinga dos véus da aurora para onde cricrila o grilo;
A meia-noite ali brilha; o meio-dia é esbrasear;
E o poente… pintarroxos vêm cobri-lo.

Vou levantar-me e ir agora, porque sempre, noite e dia,
Ouço o marulho das águas que no lago vêm e vão;
Se na estrada me detenho, ou sobre a calçada fria,
Escuto-o bem, lá dentro do coração.


Quando Frankie (Clint Eastwood) lê esse célebre poema de Yeats para Maggie (Hilary Swank), ela já perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo, está numa cadeira de rodas, com aparelhos de respiração artificial, internada numa instituição de atendimento médico. Estamos na parte final de Menina de Ouro (“Million Dollar Baby”, 2004, dir. Clint Eastwood), que flerta com o melodrama, depois de termos acompanhado a fulminante ascensão de Maggie no boxe, treinada pelo experiente e amargurado Frankie. A choça de barro e vime do poema aparece como um consolo imaginário, uma válvula de escape para a realidade dilacerante.

Por trás de aparentes clichês típicos de filmes de superação no esporte — especialmente no boxe — e de um desfecho que parece se encaminhar para a glória da superação final, entrevemos as sóbrias qualidades que fazem de Menina de Ouro uma das obras-primas de Eastwood. Continue Lendo “Você não está respirando: “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood”

A vida verdadeira oculta no menor dos grãos: “Maria Madalena”, de Garth Davis

Vislumbres do Reino que vagamente intuímos e no íntimo esperamos

Publicado no site Persona Cinema em 25/05/2019.
No filme dirigido por Garth Davis, Maria Madalena (Rooney Mara) não é prostituta ou amante de Jesus, mas uma mulher comum que se torna apóstola.

Ela lhe perguntou: “Como será o Reino?”. E ele disse: “É como uma semente, um único grão de mostarda, que uma mulher pegou e semeou em seu jardim. E cresceu e cresceu. E as aves do céu fizeram ninhos em seus galhos”.

Maria Madalena, de Garth Davis, inicia com a narração acima em off e as imagens sublimes e oníricas de uma mulher sob a água, com o corpo inerte sendo conduzido pela corrente para dentro do azul profundo de um abismo submerso. Não há pontos de referência; a água está por toda parte, por todos os lados, criando uma gênese para o filme e para o nascimento da personagem que lhe dá título — Maria Madalena está à deriva, sem rumo, em naufrágio existencial, adentrando num abismo. Com o belo trabalho da fotografia (Greig Fraser) e da trilha sonora (Hildur Guðnadóttir e Jóhann Jóhannsson), esses primeiros minutos do filme já caracterizam com força simbólica a crise da personagem. O roteiro, por sua vez, apresenta a sempre fascinante reflexão sobre o Reino Divino. Serão estes os dois dínamos temáticos do filme: a vida interior de Maria Madalena e a busca pelo Reino de que nos falam as Sagradas Escrituras. Continue Lendo “A vida verdadeira oculta no menor dos grãos: “Maria Madalena”, de Garth Davis”

A mais bela de todas as aventuras: “Minha noite com ela”, de Éric Rohmer

Transcendendo os dilemas morais à luz da teologia de Joseph Ratzinger

Publicado no site Persona Cinema em 30/03/2019.
A sedutora Maud

Ainda podemos concordar com a avaliação datada de 1970, feita pelo célebre crítico norte-americano Roger Ebert (1942–2013), de que Minha noite com ela (“Ma nuit chez Maud”, 1969, dir. Éric Rohmer) seria o melhor filme sobre ser católico, sobre amor e sobre linguagem corporal? O entusiasmo de Ebert, que permanece vigoroso através do encanto que o filme ainda proporciona e pela vitalidade que mantém até os dias de hoje, pode ser melhor compreendido à luz da teologia de um livro contemporâneo ao filme: Introdução ao Cristianismo [1], de Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI), que no ano da sua primeira edição, 1967, ainda era “apenas” um padre e professor de teologia; no ano do lançamento do filme, 1969, o livro já chegava à sua décima edição, enriquecendo sobremaneira a compreensão da fé cristã, como o faz até hoje, do mesmo modo como o filme de Rohmer continua encarnando com graça e inteligência raras as perspectivas dessa fé. Continue Lendo “A mais bela de todas as aventuras: “Minha noite com ela”, de Éric Rohmer”

Porque meu pai me prometeu

Como o cinema responde à desesperança: das sombras de “First Reformed” à luz do futuro em “Interestelar”

Publicado no site Persona Cinema em 28/02/2019.
A um só tempo majestosa e sombria, equilibrada e obscura, a imagem de abertura de “First Reformed” introduz a ambivalência que caracteriza o filme.

Em uma das cenas mais duras do inesquecível Morangos Silvestres (1957, dir. Ingmar Bergman), há um diálogo na chuva entre Evald e Marianne, casal em crise — ela acaba de revelar que está grávida — , em que ele diz:É um absurdo trazer uma criança a esse mundo e pensar que estará melhor do que nós”. O andamento e o desfecho do filme nos fazem crer que é bem possível que Evald esteja certo do ponto de vista lógico — não há motivo para pensar que as próximas gerações serão mais felizes — , mas que se equivoca tragicamente na sua intenção desesperada de argumentar contra a vida, de fazer crer que a vida mesma não vale a sua pena, de que todo sofrimento é em vão — enfim, de que interromper a gravidez é um ato de razoabilidade ou de lucidez.

Praticamente a mesma fala aparece no mais recente filme de Paul Schrader, First Reformed (2017, intitulado No coração da escuridão em Portugal e sem lançamento no Brasil), novamente por ocasião de um homem em crise, opondo-se à gravidez de sua jovem esposa, Mary (Amanda Seyfried). Ela decide pedir aconselhamento ao reverendo Toller (Ethan Hawke), o pastor da pequena igreja local, colocando-o em diálogo com seu marido, Michael (Philip Ettinger). É nessa conversa que surge a fala e que o drama do filme é desencadeado. Diferente do clássico de Bergman, em First Reformed os rumos da história e sua conclusão são bem mais obscuros e ambíguos — mas não é nossa intenção aqui revelá-los, e sim explorar as tensões que se apresentam a partir do referido diálogo e, num segundo momento, partir para uma viagem no tempo, até o tão temido futuro das gerações vindouras, sem sairmos do cinema. Continue Lendo “Porque meu pai me prometeu”

O verdadeiro segredo de “Assunto de Família”

Como um gesto surpreendente de misericórdia ilumina o filme de Koreeda

Publicado no site Persona Cinema em 26/01/2019.
A menina Yuri inserida em sua nova família.

Em Assunto de Família, o novo filme de Hirokazu Koreeda, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2018, somos introduzidos no lar de uma empobrecida família japonesa de um centro urbano contemporâneo. Desde a sequência inicial até meados do filme somos chamados a testemunhar uma situação controversa que nos instala em uma desconfortável ambiguidade moral: a família vive de pequenos furtos, para os quais o menino Shota (Jyo Kairi) é devidamente treinado, até fraudes e outros expedientes obscuros que vão progressivamente se acentuando; por outro lado, os laços de fraternidade, companheirismo, apoio e afeto mútuos brilham na tela de modo cativante, apelando ao que há de mais profundamente humano em nossa capacidade de empatia e de compaixão. Continue Lendo “O verdadeiro segredo de “Assunto de Família””