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Saindo do ar
Este site será desativado em breve. Parte do conteúdo – os ensaios, que foram publicados também em outros sites – será migrado para o meu Medium. A outra parte será migrada para o meu antigo blog – comentários, listas, indicações, notas de leitura etc -, que passará a ser atualizado com novas postagens.
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Notas de leitura – “O ESTRANGEIRO”, de Albert Camus
“L’étranger”, publicado originalmente em 1942. Trad. Valerie Rumjanek, ed. Record, ano da edição não identificado. Lido em 2009, relido em 2025. “- Se andarmos devagar – disse ela – arriscamo-nos a uma insolação. Mas se andarmos depressa demais, transpiramos, e, na igreja, apanhamos um resfriado. “Tinha razão. Não havia saída.” (pág. 22) 1) A fala…
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Notas de leitura – “A LITERATURA E OS DEUSES”, de Roberto Calasso
“La letteratura e gli dèi”, reunião de oito conferências ministradas pelo autor em 2000, trad. Jônatas Batista Neto, ed. Companhia das Letras, 2004. “Acreditávamos viver num mundo sem névoa e desencantado, avaliável e verificável. Ao contrário, encontramo-nos num mundo onde tudo voltou a ser ‘fábula’. Como poderemos nos orientar? A que fábula vamos nos abandonar…
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Uma ou duas frases de “PÁRADAIS”, de Fernanda Melchor
“Páradais”, publicado originalmente em 2021, trad. Heloisa Jahn, ed. Mundaréu, 2022. “A única coisa que se ouvia eram os zumbidos agônicos de bilhões de insetos e a cortina ensurdecedora da chuva, envolvendo-os.” (pág. 68) Nascida em 1982, a mexicana Fernanda Melchor é a mais jovem ficcionista da minha estante. Páradais é feito quase inteiramente de…
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Relendo “BRILHO DA NOITE, CIDADE GRANDE”, de Jay McInerney
“Bright Lights, Big City“, publicado originalmente em 1984, trad. Luiz Fernando Brandão, ed. L&PM, 1986. Fui acomodar o Solenoide (Cărtărescu, nascido em 1956) na estante e, como ordeno os livros de ficção por ordem de nascimento do autor, notei que logo ao lado o McInerney (1955) olhava pra mim. Resolvi reler (também porque recém li…
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“COMPLÔ CONTRA A AMÉRICA”, de Philip Roth
“The plot against America”, publicado originalmente em 2004, trad. Paulo Henriques Britto, ed. Companhia das Letras, 2018. Sinopse – A eleição presidencial de 1940, nos EUA, é vencida por Charles Lindbergh, candidato que defende a não intervenção do país na 2º Guerra Mundial, enquanto manifesta simpatia pelo nazismo e critica os americanos de origem judaica.…
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Impressões sobre “SOLENOIDE”, de Mircea Cărtărescu
“Solenoid”, publicado originalmente em 2015, trad. Fernando Klabin (direto do romeno), ed. Mundaréu, 2024. “Feito de devaneio, de aroma e de sombra” – foram essas as palavras que me conduziram ao longo de toda a leitura, apresentadas na epígrafe como parte da citação de um poema de Tudor Arghezi, e que melhor simbolizam o livro.…
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“Carol” e o que pode um par de pernas
Revi dias atrás o formidável Carol (2015, dir. Todd Haynes), pela primeira vez na telona (não adianta, a experiência da sala de cinema é incomparável), sessão lotadíssima no Capitólio para ver essa que é uma das joias da última década cinematográfica. O que mais me encanta é que há uma certa aura de sonho revestindo…
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Notas de leitura – “A TRÉGUA”, de Mario Benedetti
“La tregua”, publicado originalmente em 1960. As referências são da edição da Coleção Folha de São Paulo – Literatura Ibero-Americana, trad. Joana Angelica D’Avila Melo, 2012. Sinopse – Escrito em formato de diário ao longo de um ano, narra o cotidiano de Santomé, funcionário contábil de uma empresa comercial em Montevidéu, viúvo há mais de…
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Capas da The New Yorker
Completam-se cem anos da revista The New Yorker (aqui um bom panorama dessa história, por Paulo Roberto Pires). Embora eu não acompanhe a revista – me basta saber que foi um espaço muito importante para J.D. Salinger, meu favorito entre os autores norte-americanos -, acho as capas um grande barato, de variados estilos – cartunescas,…
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10 filmes preferidos de 2024
Lançados nos cinemas de Porto Alegre neste ano, em ordem de preferência. 1º) Folhas de Outono (Kuolleet lehdet, dir. Aki Kaurismäki) [visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana] Confesso que não conhecia nenhum dos filmes do diretor finlandês (o que decerto facilitou meu deslumbramento), e portanto não tinhas grandes expectativas. Reforço o coro…
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Indicações II
1) Ensaio de Charles Yu sobre o filme In the Mood for Love (“Amor à flor da pele”, dir. Wong Kar-Wai, 2000): https://www.criterion.com/current/posts/7976-notes-on-in-the-mood-for-love 2) “Caminhando pela Flip com Roland Barthes”, ensaio de Marcelo Nunes: 3) Entrevista com Tamara Klink, falando inclusive sobre ficção, música, sonho. Por Paulo Lima.
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Cada diário é infeliz à sua maneira: “CADERNO PROIBIDO”, de Alba de Céspedes
Publicado na Revista Unamuno em 09/11/2024 Publicada originalmente em 1952, a ficção Caderno Proibido (“Quaderno Proibito”, trad. Joana Angélica d’Avila Melo, ed. Companhia das Letras, 2022) permanece como um reconhecido triunfo de Alba de Céspedes (Itália, 1911-1997) quanto à expressão da condição social e existencial feminina, especialmente no que se refere às inúmeras concessões silenciosas…
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Indicações I
1) Sobre a música Inverno (Adriana Calcanhotto), por Túlio Ceci Villaça: 2) Do mesmo autor, sobre Cazuza, Clarice Lispector, Cássia Eller, Legião Urbana: 3) The deracination of literature, ensaio de Mary Gaitskill: https://unherd.com/2022/06/the-death-of-literature
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Notas portenhas do subsolo: “O TÚNEL”, de Ernesto Sabato
Publicado na Unamuno em 31/05/2024 “Há esperança suficiente, esperança infinita – mas não para nós”. Sempre que me deparo com essa sentença atribuída a Kafka (em diálogo lembrado por Max Brod), penso em quem seriam os sujeitos; “nós” quem? A humanidade? Kafka e Brod? O autor e seus leitores? Os escritores? Os escritores que não…
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“Um gosto de sol”: crônica sobre a enchente de maio de 2024
Publicado no blog Diário da Enchente em 28/05/2024 O que há de melhor em ser um habitante de Porto Alegre? Em diversos momentos me fiz essa pergunta, desde que me mudei para a capital. Costumava me dividir entre duas respostas: as salas de cinema e a orla do Guaíba (incluindo o parque Marinha). Acabei percebendo…
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A ficção assume o controle: “IOGA”, de Emmanuel Carrère
Publicado na Unamuno em 11/08/2023 “Quando os personagens são vivos, realmente vivos, diante de seu autor, este não faz outra coisa senão segui-los, nas palavras, nos gestos que, precisamente, eles lhe propõem. E é preciso que ele os queira como eles querem ser.” (Seis personagens à procura de um autor, Luigi Pirandello) [1] É impossível…
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As Flores do Mal de Gotham City
Publicado na Unamuno em 20/05/2023 “Pareceu-me prazeroso, e tanto mais agradável quanto mais difícil era a tarefa, extrair do Mal a beleza” (grifo do poeta), rascunhou Baudelaire num projeto de prefácio às Flores do Mal. “Alguns me disseram que estas poesias podiam fazer mal. Não fiquei satisfeito com isso. Outros, boas almas, que elas podiam…
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Breve paralelo entre “Um retrato do artista quando jovem” e “Os irmãos Karamázov”
São ambas epifanias arrebatadoras, decisivas na trajetória de dois jovens seminaristas em crise diante da dificuldade de conciliar suas aspirações com o mundo tal qual é. Stephen Dedalus diante da moça desconhecida na praia faz eco a Aliócha após o seu encontro com Grúchenka:
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Não há consolo maior que o desconsolo: “Serotonina”, de Michel Houellebecq
Publicado originalmente na extinta Amálgama (24/08/2019) e republicado na Unamuno (09/02/2023) “Não há consolo maior que o desconsolo, como não há esperança mais criadora que a dos desesperados. Os homens buscam a paz, diz-se. Mas será isso verdade? É como quando se diz que os homens buscam a liberdade. Não, os homens buscam a paz…
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O retrato de Anna Kariênina
Ensaio sobre o clássico de Tolstói Publicado na Unamuno em 10/11/2022 Félix Vallotton Ao contrário do que se costuma pensar, o leitor experiente inveja o leitor inexperiente; é que este ainda tem pela frente numerosos universos a descobrir, tantos prazeres incalculáveis a experimentar, todo um caminho fascinante a percorrer entre os maiores clássicos, enquanto aquele…
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Travis no cinema ou Kim Min-hee no deserto
Publicado em 25/07/2022 no Estado da Arte e no À pala de Walsh, para a série de textos ‘Diálogos’, cuja proposta é abordar a oralidade e os diálogos no cinema. Travis (Harry Dean Stanton) em “Paris, Texas” Tem dias em que a linguagem é sentida como se fosse uma jaula, da qual gostaríamos de escapar ultrapassando…
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De espectadores a protagonistas: “Drive My Car”, de R. Hamaguchi.
Publicado no Estado da Arte em 15/06/2022 Ora emprega-se o substantivo esteta para caracterizar o criador de belas (e geralmente enganosas) imagens, ora para evocar afetações vanguardistas ou formalistas, mas, para além desses sentidos mais vulgares e depreciativos, o melhor esteta é aquele que expressa sobretudo a noção de que o ficcional precisa de tanta…
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A piedade das Musas: Escutando Nina Simone
Publicado em Unamuno, em 11/04/2022. Das muitas formas que a alegria assume, a de cantar os seus próprios infortúnios, desgraças, desilusões e derrotas talvez seja a mais inusitada. Qualquer que seja a tristeza da canção — ou de outra forma artística — , ela é superada pela alegria da criação, pelo júbilo de saber dar voz a uma…
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Finge tão completamente: “Roda do Destino”, de R. Hamaguchi
Publicado no Estado da Arte em 04/03/2022 Meiko (Kotone Furukawa) “Somos produtos defeituosos”, dizem Meiko (Kotone Furukawa) e Kazuake (Ayumu Nakajima), rindo, no momento em que quebram momentaneamente o pico de tensão do primeiro episódio de Roda do Destino (Gûzen to sôzô, dir. Ryûsuke Hamaguchi, 2021), em meio a uma crise de ciúmes repleta de…