Cena de Carol – na verdade, um rápido plano de transição de cenas.
Revi dias atrás o formidável Carol (2015, dir. Todd Haynes), pela primeira vez na telona (não adianta, a experiência da sala de cinema é incomparável), sessão lotadíssima no Capitólio para ver essa que é uma das joias da última década cinematográfica. O que mais me encanta é que há uma certa aura de sonho revestindo cada plano do filme, criando um mundo em que o sentido está inteiro na beleza – reconhecê-la, admirá-la, cultivá-la, conquistá-la, render-se à beleza, em todos os seus aspectos.
Lançados nos cinemas de Porto Alegre neste ano, em ordem de preferência.
1º) Folhas de Outono (Kuolleet lehdet, dir. Aki Kaurismäki)
[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]
Confesso que não conhecia nenhum dos filmes do diretor finlandês (o que decerto facilitou meu deslumbramento), e portanto não tinhas grandes expectativas. Reforço o coro dos que ficam cativados pelo olhar de Kaurismäki sobre essas figuras solitárias, desajeitadas, apagadas, falidas, e pelo coração genuíno que transparece por trás de um aparente artificialismo frio e irônico. Lembro especialmente do frenesi que percorria a sala de cinema na cena capital da reviravolta do protagonista ao ouvir as moças cantando e tocando no bar. (A propósito, o duo de irmãs se chama Maustetytöt, os seus discos são muito bons, e acabei me tornando um ouvinte frequente do pop irresistivelmente estranho delas, que cai como uma luva no filme e no estilo do diretor).
“Pareceu-me prazeroso, e tanto mais agradável quanto mais difícil era a tarefa, extrair do Mal a beleza” (grifo do poeta), rascunhou Baudelaire num projeto de prefácio às Flores do Mal. “Alguns me disseram que estas poesias podiam fazer mal. Não fiquei satisfeito com isso. Outros, boas almas, que elas podiam fazer bem; e isso não me afligiu. O temor de uns e a esperança de outros espantaram-me igualmente e só serviram para me provar uma vez mais que este século desaprendeu todas as noções clássicas relativas à literatura.” [1]
Na ironia mordaz do poeta contra as tentativas de justificar – para o bem ou para o mal – o prazer gratuito do senso estético, assim como na demonstração de que também na aparente feiura pode ocultar-se e revelar-se a beleza, o espírito moderno reconheceu a expressão de certas inclinações subterrâneas que, embora constituíssem desde sempre parte do coração humano, ainda não haviam recebido tão ampla e apropriada verve poética.
Publicado em 25/07/2022 no Estado da Arte e no À pala de Walsh, para a série de textos ‘Diálogos’, cuja proposta é abordar a oralidade e os diálogos no cinema.
Travis (Harry Dean Stanton) em “Paris, Texas”
Tem dias em que a linguagem é sentida como se fosse uma jaula, da qual gostaríamos de escapar ultrapassando os limites das palavras e penetrando em algum reino oculto supra verbal, onde tudo fosse ao mesmo tempo intuitivo e misterioso, contemplativo e sensorial, livre e envolvente. Dessa jaula não se escapa a não ser por meio das artes (ainda que também atreladas às suas respectivas linguagens), especialmente em tempos de comunicação saturada.
Como em De Olhos Bem Fechados, em que o diálogo é proscrito por uma realidade secreta paralela, o cinema oferece um vislumbre dessa lanterna mágica ao mesmo tempo em que interpela o espectador, solicita uma garantia de atenção plena, questiona o conhecimento do código: seja Fidelio, Rosebud ou outra que tivermos aprendido, ainda é uma palavra que precisa ser pronunciada para que se abram as portas desse castelo fascinante e aterrador. Outras vezes nos deparamos com alguma frase lapidar que encerra um universo inteiro em si, batendo a porta bem no nosso nariz: “Forget it, Jake, it’s Chinatown”; ou nos colocando diante de um espelho a dialogar com nossa própria alienação (“You talking to me?”); ou, quando a nostalgia é irresistível, “We’ll always have Paris”. Continue Lendo “Travis no cinema ou Kim Min-hee no deserto”
Ora emprega-se o substantivo esteta para caracterizar o criador de belas (e geralmente enganosas) imagens, ora para evocar afetações vanguardistas ou formalistas, mas, para além desses sentidos mais vulgares e depreciativos, o melhor esteta é aquele que expressa sobretudo a noção de que o ficcional precisa de tanta verdade quanto o real, de que necessita do mesmo grau de atenção, de entrega, de generosidade, de confiança e de desconfiança, para que o seu universo possa crescer e se expandir, até de fato se tornar “a coisa mais próxima da vida” (nas célebres palavras de George Eliot).
Diálogos em que se fala sobre como a literatura e a ficção solicitam plena atenção e dedicação para que sejam vivenciadas como universos autônomos e autênticos, ou em que se fala sobre o valor dos detalhes que não costumam ser percebidos; situações em que a arte invade a realidade, borra os seus contornos e abre frestas para outras camadas — essas são algumas características que vêm sendo exploradas na obra cinematográfica de Ryûsuke Hamaguchi, com êxito crescente a cada novo filme. Enfatizando criativamente o ato de fruição estética, o cineasta japonês tem se revelado um dos grandes estetas do cinema contemporâneo (leia-se também o nosso ensaio sobre o seu longa anterior). Continue Lendo “De espectadores a protagonistas: “Drive My Car”, de R. Hamaguchi.”
“Somos produtos defeituosos”, dizem Meiko (Kotone Furukawa) e Kazuake (Ayumu Nakajima), rindo, no momento em que quebram momentaneamente o pico de tensão do primeiro episódio de Roda do Destino (Gûzen to sôzô, dir. Ryûsuke Hamaguchi, 2021), em meio a uma crise de ciúmes repleta de manipulação emocional e de diálogos deliciosamente capciosos. Quando, na sequência, vemos Meiko retrocedendo dentro de uma cena, como se corrigisse a escolha impulsiva que fizera, a estrutura mesma do filme se abre para incorporar os ditos produtos defeituosos no seu interior e dar-lhes nova oportunidade.
Processo semelhante ocorre nos dois outros episódios, embora por meios distintos — a simulação que, falhada, escreve certo por linhas tortas (ou será o contrário?), e o equívoco que leva à representação de personas em pleno ambiente da realidade (seja lá o que isso signifique). Há uma aura misteriosa de indefinição quanto aos limites entre realidade, ficção, imaginação e desejo, que não é sufocada pela engenhosidade dos longos diálogos, incorporando-se no fluxo das cenas sobretudo através da exploração visual de vidraças — ora isolando o universo dos personagens em aquários, ora ampliando-os por meio de reflexos imprecisos, ora absorvendo limites em transparências. Continue Lendo “Finge tão completamente: “Roda do Destino”, de R. Hamaguchi”
É do filme Memórias (“Stardust Memories”, 1980) que nos vem a recordação de uma das mais adoráveis e inspiradoras cenas que já vimos, quando o protagonista, um famoso diretor de cinema interpretado pelo próprio Woody Allen, procura relembrar algum momento especialmente feliz da sua vida. Confrontando a perspectiva da morte, buscando algo a que se agarrar para daí retirar forças, relembra um domingo de primavera em que, após voltar de uma caminhada no parque com Dorrie (Charlotte Rampling) e colocar uma música de Louis Armstrong para tocar (Stardust), sente um bem-estar inigualável em apenas ficar de bobeira no apartamento, sem fazer nada de especial. “E acho que foi a combinação de tudo, o som da música, a brisa, e como Dorrie estava linda. Por um breve momento, tudo pareceu se encaixar perfeitamente. E eu me senti feliz, de uma forma quase indestrutível”. Em seguida as palavras cessam e toda a expressividade fica por conta da imagem e da música, enquanto contemplamos Dorrie, em estado de graça (nós e os personagens). A cena é abruptamente interrompida por gritos de desaprovação da plateia que assiste o diretor. O encanto dá lugar ao sarcasmo. A nostalgia é destroçada pela urgência da vida, e é preciso rir para não se deixar esmagar pela ausência de sentido dessa mesma urgência.
O exercício biográfico da memória que se depara com os momentos mais felizes de toda uma vida, mas também com o absurdo que está sempre à espreita, ameaçando mesmo o que parecia indestrutivelmente pleno de sentido, é parte do que podemos encontrar n’A Autobiografia de Woody Allen (“Apropos of Nothing”, trad. Santiago Nazarian, ed. Globo Livros, 2020, 328 p.). Continue Lendo “Precisamos dos ovos: “A Autobiografia”, de Woody Allen”
O ano da peste. O ano dos cinemas fechados. O ano em que mais assisti filmes na minha vida, porém em que menos vezes fui ao cinema — uma contradição atroz, para quem considera que o ritual da sala de cinema pode ser tão importante quanto o filme em si. Lamentações evasivas de quem assistiu apenas oito lançamentos e oferece esta escassa lista de preferidos:
1º) Uma Vida Oculta (Terrence Malick)
Malick volta a pisar em chão mais firme, ao mesmo tempo em que nos leva para alturas alpinas — e além. Terra e Céu conjugam-se numa grande história de amor. Escrevi sobre o filme para o Persona.
Mia (Emma Stone), Sebastian (Ryan Gosling) e Los Angeles: o esplendor de entrar em cena, a frustração de sair de cena.
De repente, em pleno domingo no parque, a Senhorita Brill dá-se conta, entusiasmada, de que todas aquelas pessoas — inclusive ela mesma — estavam atuando numa inconsciente peça teatral. “Ah, como era fascinante!” — reflete a personagem do conto de Katherine Mansfield [1] — “Como ela gostava daquilo! Como amava sentar ali e assistir a tudo! Era como uma peça de teatro! Era exatamente como uma peça de teatro. Quem não acreditaria que o céu, ao fundo, não era pintado?”. Estavam todos num invisível palco, e era isso o que tornava tudo tão emocionante aos olhos da Srta. Brill:
“A banda tinha estado descansando. Agora, voltavam a tocar. E o que tocavam era caloroso, ensolarado, contudo havia uma leve friagem — alguma coisa, o que era? — não era tristeza — não, não tristeza — algo que fazia a gente querer cantar. A melodia se elevava cada vez mais e a luz brilhava. A Srta. Brill teve a impressão de que, a qualquer momento, todos eles, toda a companhia, começariam a cantar. Os jovens, os risonhos que passeavam juntos, esses começariam. Depois, as vozes masculinas, mais firmes e viris, se juntariam à deles. E então, ela também, ela também, e os outros nos bancos — eles entrariam com um tipo de acompanhamento”…
A expansão de um estado de espírito muito parecido com esse que Mansfield criou no conto Senhorita Brill pegou a muitos de nós desprevenidos na abertura de La La Land (2016, dir. Damien Chazelle), em que um engarrafamento de rotina num viaduto de Los Angeles repentinamente explode em cantorias, cores, coreografias, homens e mulheres esfuziantes — um mundo que não cabe em si de tanta alegria, de tanta vontade de cantar e de dançar. Súbito, tudo parece muito falso, quase ridículo — o céu, ao fundo, não parece pintado? Estavam todos num invisível palco, e, antes que o nosso receio de não suportar duas horas de tão artificial espetáculo nos fizesse desistir do filme, se impunha adotar a perspectiva da Srta. Brill: era isso o que tornava tudo tão emocionante. Continue Lendo “Algo que nos faz querer cantar: “La La Land”, de Damien Chazelle”
“O desejo do homem sendo Infinito, a posse é Infinita e ele mesmo Infinito” (William Blake)
Depois de explorar as ruas, as noites, os condomínios, os trens, os cheiros e as temperaturas de Nova York nos seus cinco primeiros longas — Fuga para Odessa (1994), Caminho sem volta (2000), Os donos da noite (2007), Amantes (2008) e Era uma vez em Nova York (2013) — , James Gray se afasta de casa, se afasta muito, nos seus dois filmes mais recentes: transita entre a Inglaterra do início do século XX e a selva amazônica em Z: A Cidade Perdida (2016) e viaja até os confins do Sistema Solar em Ad Astra (2019). Abre-se, nesse movimento para fora, uma janela de infinita perspectiva — de fome metafísica — , representada, sobretudo, pelas insaciáveis ambições do explorador arqueológico Percy Fawcett e do explorador espacial McBride (o pai), ambos em busca de uma realidade absoluta que transcenda as contingências da vida e que justifique uma jornada que nunca termina.
Em contrapartida, tamanho salto para dimensões imensuráveis resulta numa sensível perda de calor humano no cinema do diretor — um prejuízo calculado, sem dúvida, pois a dificuldade de estabelecer fortes laços afetivos é um dos aspectos que caracterizam os personagens desses filmes. E, embora seja possível apontar essa característica em variados graus ao longo de toda a filmografia do diretor, o fato é que nos seus dois últimos filmes saem de cena os ambientes domésticos, os apartamentos abafados, as danceterias efervescentes, a sensualidade feminina, a cultura urbana, o sexo, a umidade noturna do Queens, do Brooklyn e das demais paisagens nova-iorquinas. Até mesmo na ambientação gelada e sombria de Fuga para Odessa a tela está impregnada com mais calor humano, mais epiderme viva, mais desejo pulsante do que na janela formada pelos dois filmes mais metafísicos do diretor. Continue Lendo “O paraíso perdido de James Gray”