Como o exercício do olhar subverte e transfigura a aparente banalidade da realidade
Publicado no site Persona Cinema em 13/09/2019.

O perigo é baixar a pálpebra
entre o esplendor da realidade
e o desespero, essa falsa álgebra
que interpõe entre o ser e a vida
uma distância descabida.
É preciso olhar com cuidado,
lançar contra todo argumento
aquele olhar maravilhado
e novo, aquele olhar sedento
que subverte e transfigura.
O ser é a visão que procura.
(Bruno Tolentino, trecho de “A Balada do Cárcere”)
Possuidor do curioso charme do que se convencionou chamar de cinema independente norte-americano, Cortina de Fumaça (Smoke, 1995, direção de Wayne Wang e co-direção de Paul Auster) tem poucos cenários, modestos recursos cênicos, diálogos criativos, personagens secundários excêntricos e uma pitada de certo mistério, que, tudo somado e bem arranjado, conquistam rapidamente a simpatia do espectador. Quando o filme termina, no entanto, para além de toda simpatia e do prazer estético, fica-se imbuído de uma estranha alegria agridoce, não por sentimentalismo ou conveniências de um final feliz, mas pelo modo como o filme se abre para a ventura da vida, de como a arte se mostra permeável ao mistério do ser. É desconcertante que um filme tão despretensioso e até prosaico consiga alcançar essa dimensão. Continue Lendo “Você nunca entenderá se não olhar mais devagar: “Cortina de Fumaça”, de Wayne Wang”




