Lançados nos cinemas de Porto Alegre neste ano, em ordem de preferência.
1º) Folhas de Outono (Kuolleet lehdet, dir. Aki Kaurismäki)
[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]
Confesso que não conhecia nenhum dos filmes do diretor finlandês (o que decerto facilitou meu deslumbramento), e portanto não tinhas grandes expectativas. Reforço o coro dos que ficam cativados pelo olhar de Kaurismäki sobre essas figuras solitárias, desajeitadas, apagadas, falidas, e pelo coração genuíno que transparece por trás de um aparente artificialismo frio e irônico. Lembro especialmente do frenesi que percorria a sala de cinema na cena capital da reviravolta do protagonista ao ouvir as moças cantando e tocando no bar. (A propósito, o duo de irmãs se chama Maustetytöt, os seus discos são muito bons, e acabei me tornando um ouvinte frequente do pop irresistivelmente estranho delas, que cai como uma luva no filme e no estilo do diretor).
“Pareceu-me prazeroso, e tanto mais agradável quanto mais difícil era a tarefa, extrair do Mal a beleza” (grifo do poeta), rascunhou Baudelaire num projeto de prefácio às Flores do Mal. “Alguns me disseram que estas poesias podiam fazer mal. Não fiquei satisfeito com isso. Outros, boas almas, que elas podiam fazer bem; e isso não me afligiu. O temor de uns e a esperança de outros espantaram-me igualmente e só serviram para me provar uma vez mais que este século desaprendeu todas as noções clássicas relativas à literatura.” [1]
Na ironia mordaz do poeta contra as tentativas de justificar – para o bem ou para o mal – o prazer gratuito do senso estético, assim como na demonstração de que também na aparente feiura pode ocultar-se e revelar-se a beleza, o espírito moderno reconheceu a expressão de certas inclinações subterrâneas que, embora constituíssem desde sempre parte do coração humano, ainda não haviam recebido tão ampla e apropriada verve poética.
Das muitas formas que a alegria assume, a de cantar os seus próprios infortúnios, desgraças, desilusões e derrotas talvez seja a mais inusitada. Qualquer que seja a tristeza da canção — ou de outra forma artística — , ela é superada pela alegria da criação, pelo júbilo de saber dar voz a uma falta, que nesse momento mesmo se faz sentir como uma completude.
“Não há nenhuma situação tão terrível que não possa ser aliviada por uma pausa momentânea do espírito para contemplá-la esteticamente” — escreve o filósofo George Santayana em O Sentimento da Beleza — “Assim, o próprio sofrimento deixa de ser apenas dor; algo doce lhe é acrescentado mediante a nossa reflexão. As cenas mais tristes podem perder a sua amargura por causa da sua beleza. Essa função constitui, por assim dizer, a piedade das Musas, que socorrem a sua mãe, a Vida, e recompensam-na com o conforto de sua presença contínua por tê-las criado.”
Nessa pausa momentânea do espírito, ouve-se o canto doloroso com a consolação de quem encontra a expressão de uma solidão que julgava só sua. Quem os males canta, não necessariamente os espanta; antes, converte-os numa espantosa solidão compartilhada com seus ouvintes. Juntos no canto, porém não mais encurralados, assim descobrimos o segredo do blues, por excelência, que é também o segredo da insuspeitada e sutil alegria provocada pelo samba triste, pela lírica poética, pela prosa intimista, pelas formas e cores de boa parte das grandes criações artísticas.
Dos mais agudos clamores aos mais graves lamentos, a música de Nina Simone (1933–2003) realiza essa alquimia espiritual com generosa intensidade, frequência e versatilidade, como o ouvinte percebe, por exemplo, nas quatro faixas a seguir, que ilustram, cada uma a seu modo, distintas abordagens musicais: Continue Lendo “A piedade das Musas: Escutando Nina Simone”
É do filme Memórias (“Stardust Memories”, 1980) que nos vem a recordação de uma das mais adoráveis e inspiradoras cenas que já vimos, quando o protagonista, um famoso diretor de cinema interpretado pelo próprio Woody Allen, procura relembrar algum momento especialmente feliz da sua vida. Confrontando a perspectiva da morte, buscando algo a que se agarrar para daí retirar forças, relembra um domingo de primavera em que, após voltar de uma caminhada no parque com Dorrie (Charlotte Rampling) e colocar uma música de Louis Armstrong para tocar (Stardust), sente um bem-estar inigualável em apenas ficar de bobeira no apartamento, sem fazer nada de especial. “E acho que foi a combinação de tudo, o som da música, a brisa, e como Dorrie estava linda. Por um breve momento, tudo pareceu se encaixar perfeitamente. E eu me senti feliz, de uma forma quase indestrutível”. Em seguida as palavras cessam e toda a expressividade fica por conta da imagem e da música, enquanto contemplamos Dorrie, em estado de graça (nós e os personagens). A cena é abruptamente interrompida por gritos de desaprovação da plateia que assiste o diretor. O encanto dá lugar ao sarcasmo. A nostalgia é destroçada pela urgência da vida, e é preciso rir para não se deixar esmagar pela ausência de sentido dessa mesma urgência.
O exercício biográfico da memória que se depara com os momentos mais felizes de toda uma vida, mas também com o absurdo que está sempre à espreita, ameaçando mesmo o que parecia indestrutivelmente pleno de sentido, é parte do que podemos encontrar n’A Autobiografia de Woody Allen (“Apropos of Nothing”, trad. Santiago Nazarian, ed. Globo Livros, 2020, 328 p.). Continue Lendo “Precisamos dos ovos: “A Autobiografia”, de Woody Allen”
Mia (Emma Stone), Sebastian (Ryan Gosling) e Los Angeles: o esplendor de entrar em cena, a frustração de sair de cena.
De repente, em pleno domingo no parque, a Senhorita Brill dá-se conta, entusiasmada, de que todas aquelas pessoas — inclusive ela mesma — estavam atuando numa inconsciente peça teatral. “Ah, como era fascinante!” — reflete a personagem do conto de Katherine Mansfield [1] — “Como ela gostava daquilo! Como amava sentar ali e assistir a tudo! Era como uma peça de teatro! Era exatamente como uma peça de teatro. Quem não acreditaria que o céu, ao fundo, não era pintado?”. Estavam todos num invisível palco, e era isso o que tornava tudo tão emocionante aos olhos da Srta. Brill:
“A banda tinha estado descansando. Agora, voltavam a tocar. E o que tocavam era caloroso, ensolarado, contudo havia uma leve friagem — alguma coisa, o que era? — não era tristeza — não, não tristeza — algo que fazia a gente querer cantar. A melodia se elevava cada vez mais e a luz brilhava. A Srta. Brill teve a impressão de que, a qualquer momento, todos eles, toda a companhia, começariam a cantar. Os jovens, os risonhos que passeavam juntos, esses começariam. Depois, as vozes masculinas, mais firmes e viris, se juntariam à deles. E então, ela também, ela também, e os outros nos bancos — eles entrariam com um tipo de acompanhamento”…
A expansão de um estado de espírito muito parecido com esse que Mansfield criou no conto Senhorita Brill pegou a muitos de nós desprevenidos na abertura de La La Land (2016, dir. Damien Chazelle), em que um engarrafamento de rotina num viaduto de Los Angeles repentinamente explode em cantorias, cores, coreografias, homens e mulheres esfuziantes — um mundo que não cabe em si de tanta alegria, de tanta vontade de cantar e de dançar. Súbito, tudo parece muito falso, quase ridículo — o céu, ao fundo, não parece pintado? Estavam todos num invisível palco, e, antes que o nosso receio de não suportar duas horas de tão artificial espetáculo nos fizesse desistir do filme, se impunha adotar a perspectiva da Srta. Brill: era isso o que tornava tudo tão emocionante. Continue Lendo “Algo que nos faz querer cantar: “La La Land”, de Damien Chazelle”
Em determinado momento de Stoner, o magnífico romance de John Williams, o protagonista se vê pressionado a se alistar voluntariamente no exército norte-americano, quando seu país se engaja na 1ª Guerra Mundial, embora ele duvide do sentido do conflito. Ao se aconselhar com seu experiente ex-professor Sloane, ouve o seguinte:
“Você precisa lembrar o que você é, o que escolheu ser e o significado do que está fazendo. Há guerras e derrotas e vitórias da raça humana que não são militares e não são registradas nos anais da história. Lembre-se disso quando estiver tentando decidir o que fazer.” [1]
Ninguém oferece um tão sábio e corajoso conselho a Franz Jägerstätter (August Diehl), o camponês austríaco cuja história inspirou o novo filme de Terrence Malick, Uma Vida Oculta (“A Hidden Life”, 2019). Solitário em sua decisão, ao ser convocado Franz negou-se a prestar o juramento de lealdade a Hitler, sendo preso e executado, além de ter provocado a hostilidade de praticamente toda a vila de St. Radegund (ou Santa Radegunda) contra si e sua família. Continue Lendo “Inundado por uma nova luz: “Uma Vida Oculta”, de Terrence Malick”
Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver) são prósperos profissionais das artes cênicas, que se vêem envolvidos em uma escalada de hostilidades no curso do processo de divórcio, levando à disputa pela guarda do filho Henry (Azhy Robertson).
“Não temos grande culpa pelos nossos casamentos fracassados. Vivemos em meio a alucinações, e essa armadilha especial é preparada para nos apanhar pelos pés, e nela caímos todos, cedo ou tarde”. (Ralph Waldo Emerson¹)
Próximo ao final de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), o casal de protagonistas ouve as respectivas gravações dos áudios em que um fala do outro, repletos de rancor e desgosto. O que seria um instrumento para uso restrito da clínica que intermediava a separação conjugal acaba por cair nas mãos dos clientes. Assim, inadvertidamente, Joel (Jim Carrey) ouve a descrição dos seus irritantes defeitos pessoais pela voz de Clementine (Kate Winslet), e vice-versa. São cenas de um triste constrangimento para ambos, abalados com a súbita revelação do que seus parceiros realmente pensavam, mas não diziam um ao outro, com os requintes de crueldade próprios do ressentimento e da mágoa de um relacionamento fracassado. No desenrolar da história, entretanto, é nesse ponto crítico que os personagens são desafiados se olharem com franqueza, a se aceitarem e perdoarem; é nesse ponto crítico que o rancor de uma paixão esvaída se abre para a possibilidade de um amor renovado, o que proporciona ao final do filme uma inspiradora perspectiva de esperança.
O mesmo recurso narrativo e a mesma perspectiva de esperança marcam a abertura de História de um Casamento (dirigido e roteirizado por Noah Baumbach, 2019), em que, por meio de uma narração em off, ouvimos, respectivamente, Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson) dizendo o que pensam um do outro. Aqui, contudo, o rancor e a mágoa não são expressados, pois, como ficamos sabendo em seguida, trata-se de uma sessão de terapia para casais em separação, em que são instados a escrever e ler sobre as qualidades de seus parceiros. Continue Lendo “A coisa mais difícil do mundo: “História de um Casamento”, de Noah Baumbach”
Esta é a segunda metade do ensaio abordando dez cenas inesquecíveis (acesse aqui a primeira parte). Identifica-se o título do filme, diretor e ano de produção. Nos casos em que a trilha sonora tem uma presença muito relevante, segue também identificado o compositor. A ordem é cronológica.
O critério é exclusivamente subjetivo, sem qualquer intenção de representatividade. Se é verdade que se tratam de memórias afetivas pessoais, também é verdade que as cenas têm um formidável potencial de identificação e de comunhão, que justificam serem compartilhadas. Com breves comentários, espero estimular uma reflexão que está sempre no horizonte do Persona: o caráter de revelação do cinema, e como o amor pelos filmes nos une ao coração da vida.Continue Lendo “De olhos bem abertos: dez cenas para a eternidade”
“Eu vi coisas que vocês não acreditariam”: o célebre início do breve monólogo interpretado por Rutger Hauer, potencializado pelo falecimento do ator, é inspiração para refletir sobre as relações entre diversos aspectos do cinema — visual, narrativo, simbólico, imaginativo, transitório, afetivo, entre outros.
No mundo do cinema, um dos fatos marcantes deste ano de 2019 foi a morte de Rutger Hauer, o ator que se notabilizou sobretudo por ter encarnado o inesquecível vilão de Blade Runner. Quando as redes sociais ficaram repletas de homenagens, quase sempre com imagens do monólogo da morte do seu personagem, foi possível constatar que essa cena se gravou com força incomum no coração e na memória do público — e comigo não foi diferente.
Surgiu daí o desafio auto-proposto de escolher minhas dez cenas favoritas do cinema, as dez cenas que mais mexem comigo, que não me abandonam, que são parte de mim. Clichê ou não, acredito que levarei essas cenas comigo para a eternidade; pensando bem, o que eu entendo por eternidade é, em certa medida, formado por essas cenas. Continue Lendo ““Eu vi coisas que vocês não acreditariam”: dez cenas para a eternidade”