Não há consolo maior que o desconsolo: “Serotonina”, de Michel Houellebecq

Publicado originalmente na extinta Amálgama (24/08/2019) e republicado na Unamuno (09/02/2023)
Nigel Van Wieck

Não há consolo maior que o desconsolo, como não há esperança mais criadora que a dos desesperados. Os homens buscam a paz, diz-se. Mas será isso verdade? É como quando se diz que os homens buscam a liberdade. Não, os homens buscam a paz em tempo de guerra e a guerra em tempo de paz; buscam a liberdade quando sujeitos à tirania e buscam a tirania quando vivem a liberdade”.

(Miguel de Unamuno, “A Agonia do Cristianismo”)

Em A Imaginação Liberal, publicado em 1950, o crítico e professor universitário norte-americano Lionel Trilling defende o pensamento de Freud contra as suposições de que ele adotara uma visão simplista sobre a natureza humana, argumentando que o célebre psicanalista revelou o “nó inextricável de cultura e biologia” que define o homem, que carrega “uma espécie de inferno no seu íntimo, do qual surgem os duradouros impulsos que ameaçam sua civilização”. 

Por mais questionável que seja atribuir a Freud uma intuição que as grandes tradições religiosas e artísticas já possuíam há séculos, o fato é que sua obra e seus desdobramentos influenciaram a cultura e o imaginário do século XX, trazendo à tona a imagem do homem definido por sua “faculdade de imaginar para si, no campo do prazer e da satisfação, mais do que possivelmente conseguirá ter. Tudo o que ganha, ele paga em uma proporção aumentada; o compromisso e a composição com a derrota constituem sua melhor maneira de lidar com o mundo”, conforme definido por Trilling, que conclui: “Suas [do homem] melhores qualidades são o resultado dessa luta, cujo resultado é trágico”.

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Melhores Livros de 2021: Diário I (1915–1918), de Virginia Woolf

Participei da tradicional escolha dos melhores livros do ano pela revista Amálgama, com o breve comentário abaixo.

Os diários de Virginia Woolf — Diário I (1915–1918) (ed. Nós)

Há muito tempo aguardada pelos leitores brasileiros de Virginia Woolf (1882–1941), a tradução completa dos seus diários começa a se tornar realidade quando se celebram oitenta anos da morte da autora. O bom gosto visual da edição se completa no cuidadoso trabalho de tradução, apresentação e notas de Ana Carolina Mesquita, que enfrenta o desafio de entregar ao leitor, habituado com a riqueza e o aprumo estilístico de Woolf, um texto cheio de abreviações, repetições e lapsos, produzidos ao gosto do momento, com a curiosa mistura de urgência e de ponderação que caracteriza essa forma de escrita. Se falta a substância textual que torna tão fascinantes os seus romances e ensaios, por outro lado sobressai a essência de uma observadora cuja sagacidade se mostra desde uma simples saída para comprar flores a um sinistro refúgio noturno de um bombardeio. A constante ameaça gerada pela Primeira Guerra Mundial e a angústia provocada pelas crises nervosas são confrontadas por expressões de iluminada alegria e bom humor, sobretudo quando o prazer proporcionado pela arte e pela pulsação da vida urbana superam a opressão das horas. A última dos grandes estetas da literatura, como classificou o crítico Harold Bloom, Virginia Woolf demonstra que o esteticismo é tão mais verdadeiro, potente e criativo quanto mais inteligente, sensível e arrojado for o autor, sobretudo quando capaz de provocar, no encontro da sua solidão com a do leitor, vislumbres de uma realidade que se expande em uma direção desconhecida, na contramão das expectativas de boa parte do público que procura os seus livros pelos mais diversos motivos acessórios ou ideológicos. “Elogios? Fama? A boa opinião de Janet? Como são irrelevantes, todos eles! Não paro de pensar em maneiras diferentes de lidar com as minhas cenas, concebendo possibilidades infinitas, vendo a vida, ao caminhar pelas ruas, como um imenso bloco opaco de material que preciso transmutar em sua forma equivalente de linguagem“, escreve. Erguendo o véu do hábito que nos impele a participar do mundo maquinalmente, as palavras da britânica abrem uma perspectiva inesgotável que posteriormente será tão bem explorada nos seus romances. “Que estranho destino, esse — sempre ser a espectadora do público, jamais parte dele“, registra num sábado, 30 de novembro de 1918. Pouco mais de cem anos depois, a marca deixada por Woolf segue provocando um indizível estranhamento nos nossos dias.


P.S.: o site da Amálgama foi desativado em 2022.

Virginia Woolf — por Vanessa Bell

Inteiramente só e inteiramente cercado por outros: os livros da família Glass

Publicado na extinta Amálgama (02/04/2021) e republicado na Unamuno (23/02/2023)

Kurt Solmssen

“Um cordão de isolamento formado por estantes que iam até a altura da cintura cercava três das paredes, com prateleiras lotadas e literalmente encurvadas com o peso dos livros — livros infantis, livros acadêmicos, livros usados, livros de Clube de Leitura, mais o acúmulo ainda mais heterogêneo que escapava de ‘anexos’ menos comunitários do apartamento. (Drácula agora estava ao lado de Páli para principiantes, The Boy Allies at the Somme estava ao lado de Bolts of Melody, The Scarab Murder Case e O Idiota estavam juntos, Nancy Drew and the Hidden Staircase estava por cima de Temor e Tremor.)” (Franny & Zooey, pág. 105)

Poesia, romance e filosofia da maior grandeza ao lado (e por cima e por baixo) de romances populares de amplo consumo e de manual de língua antiga. Estamos na ampla e abarrotada sala do apartamento da família Glass, na altura das ruas 70 do lado Leste de Manhattan. Franny, a mais moça entre os sete irmãos, está adoentada, prostrada no sofá, solenemente recusando as insistentes e heroicas ofertas de caldo de galinha da mãe. Zooey, o segundo mais novo, a seu modo em parte espirituoso, em parte atabalhoado, tenta demover a irmã da sua birra, pois sabe que a sua condição doentia é menos um problema de saúde do que um desânimo, uma confusão, uma nostalgia, uma saudade, um vazio — algo vagamente existencial, de algum modo relacionado com aquilo que os rodeia e cujo peso faz envergar as prateleiras: os livros da família Glass. Continue Lendo “Inteiramente só e inteiramente cercado por outros: os livros da família Glass”

A solidão da epifania

Resenha crítica de Pudor e dignidade, de Dag Solstad.

Publicado na extinta Amálgama (07/02/2021) e republicado na Unamuno (12/04/2023)
Lucian Freud

Sem alarde e com tímida divulgação, o mercado editorial brasileiro recebe pela segunda vez uma obra de Dag Solstad (nascido em 1941), considerado um dos mais notáveis ficcionistas noruegueses da atualidade: Pudor e Dignidade (“Genanse og verdighet”, editora Numa, tradução direto do norueguês por Grete Skevik), publicado originalmente em 1994. Suas cerca de 150 páginas podem ser lidas de uma só vez, graças à prosa fluida e percuciente, embora a assimilação pelo leitor não seja tão fácil e ligeira; é com a inquietação, o desconsolo e o amargor de uma crise do protagonista que veremos toda a sua vida ser revista e reavaliada a partir de um momento que parecia ser, a princípio, de iluminação e epifania, para logo se precipitar num abismo de ira, frustração e impotência.

Cativando o interesse do leitor de imediato, o estopim da epifania que se converte em crise se dá no início da narrativa, fazendo do primeiro terço do livro a sua parte mais vigorosa. Quando o professor de literatura Elias Rukla, acostumado com a rotina diária da sala de aula e com os hábitos dos seus mais de cinquenta anos de idade, tem uma súbita e inédita compreensão de um trecho inúmeras vezes relido da peça O pato selvagem, de Ibsen, o momento de rara alegria do professor sucumbe diante da incapacidade de compartilhar o seu entusiasmo com os jovens alunos, completamente alheios ao universo da literatura clássica e totalmente indiferentes ao sentido captado por Rukla nas páginas da obra. Derrotado, o professor deambula pelas ruas de Oslo, iniciando um longo mergulho na memória que recua até os anos 1960, repassando sobretudo a sua amizade com Johan, brilhante estudante de filosofia, e seu casamento com a bela Eva. Continue Lendo “A solidão da epifania”

A beleza sem tradução: “O Adolescente”, de Dostoiévski

Publicado no site Amálgama, em 12/05/2020.
Polaroid de Andrei Tarkovsky

É conhecido um pequeno incidente biográfico que diz mais sobre a obra de Dostoiévski do que parece. O grande autor russo teria desmaiado diante de uma jovem beldade a quem fora apresentado, tamanha a impressão causada por sua beleza. Imediatamente somos levados a lembrar do enorme poder que a beleza feminina exerce sobre os personagens de Dostoiévski. Poder caracteristicamente ambíguo, como são as expressões humanas que compõem o universo do autor, mas que inevitavelmente põe em marcha episódios repletos de rivalidade, inveja, orgulho, obsessão, ressentimento e toda sorte de forças demasiado humanas que arrastam homens e mulheres para o caminho do conflito e da perdição. Em contrapartida, surge no coração dos grandes romances do autor o brilho delicado de uma beleza que, ora oculta, se revela em plena luminosidade, não raro nutrida em meio ao grotesco das paixões exaltadas.

Fala-se na Síndrome de Stendhal, perturbação física e mental causada pela beleza de grandes obras de arte ou de paisagens deslumbrantes, mas como poderíamos caracterizar essa síndrome de Dostoiévski, por assim dizer, que, de um lado, afirma que “a beleza salvará o mundo” (aforismo que remonta a O Idiota), e, de outro, faz desfalecer um homem apenas por ver-se diante de uma jovem encantadora? Que, por um lado, arrasta homens e mulheres para os mais ignóbeis desejos e rivalidades, por outro faz surgir o esplendor da criatura humana na simples visão de um sorriso, por exemplo, ou na contemplação de uma criança? Continue Lendo “A beleza sem tradução: “O Adolescente”, de Dostoiévski”