10 filmes preferidos de 2024

Lançados nos cinemas de Porto Alegre neste ano, em ordem de preferência.


1º) Folhas de Outono (Kuolleet lehdet, dir. Aki Kaurismäki)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Confesso que não conhecia nenhum dos filmes do diretor finlandês (o que decerto facilitou meu deslumbramento), e portanto não tinhas grandes expectativas. Reforço o coro dos que ficam cativados pelo olhar de Kaurismäki sobre essas figuras solitárias, desajeitadas, apagadas, falidas, e pelo coração genuíno que transparece por trás de um aparente artificialismo frio e irônico. Lembro especialmente do frenesi que percorria a sala de cinema na cena capital da reviravolta do protagonista ao ouvir as moças cantando e tocando no bar. (A propósito, o duo de irmãs se chama Maustetytöt, os seus discos são muito bons, e acabei me tornando um ouvinte frequente do pop irresistivelmente estranho delas, que cai como uma luva no filme e no estilo do diretor).

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Meus filmes preferidos de 2020

Top 4

O ano da peste. O ano dos cinemas fechados. O ano em que mais assisti filmes na minha vida, porém em que menos vezes fui ao cinema — uma contradição atroz, para quem considera que o ritual da sala de cinema pode ser tão importante quanto o filme em si. Lamentações evasivas de quem assistiu apenas oito lançamentos e oferece esta escassa lista de preferidos:

1º) Uma Vida Oculta (Terrence Malick)

Malick volta a pisar em chão mais firme, ao mesmo tempo em que nos leva para alturas alpinas — e além. Terra e Céu conjugam-se numa grande história de amor. Escrevi sobre o filme para o Persona.

2º) O Oficial e o Espião (Roman Polanski) Continue Lendo “Meus filmes preferidos de 2020”

Os limites da inocência: “O Caso Richard Jewell”, de Clint Eastwood

do heroísmo possível em tempos de desconfiança e de virtudes desacreditadas

Publicado no site Persona Cinema em 12/01/2020.
Paul Walter Hauser interpreta o protagonista Richard Jewell, segurança nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996.

Aos 89 anos de idade, Clint Eastwood segue demonstrando excelência na capacidade de contar uma história e no manejo das emoções, agora com O Caso Richard Jewell.

Baseado nos fatos reais do atentado à bomba durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, que deixou dois mortos e mais de cem feridos — ação que poderia ter sido muito agravada não fosse pela interferência do segurança Richard Jewell (Paul Walter Hauser), que viria, entretanto, a se tornar o principal suspeito do crime —, Eastwood retoma o motivo do herói anônimo, na mesma linha de, principalmente, Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) e 15h17: Trem para Paris (2018), inclusive mantendo uma abordagem visualmente sóbria, simples e eficiente.

A narrativa se sustenta sobretudo na relação entre as expectativas que criamos sobre o protagonista (nós, espectadores, sabemos que Jewell é inocente, um homem bom, diligente e dedicado), e a vertiginosa pressão que ele passa a sofrer a partir do escândalo midiático gerado pela investigação, exigindo uma reação que poderá implicar em sua ruína ou no seu impulso final para fora da rede de suspeitas infundadas e má fé que parasitam sua vida. É no hábil sustento dessa relação que se encontra o brilhantismo oculto da narrativa, pois ele mantém a tensão permanente sem abusar da atenção e da emoção do espectador. A expectativa acerca de como Jewell irá reagir dentro da infernal panela de pressão em que foi colocado, de um lado, e da solidez de sua personalidade contida, prudente e impassível, de outro, é o que nos faz mais interessados na trama conduzida por Eastwood. Continue Lendo “Os limites da inocência: “O Caso Richard Jewell”, de Clint Eastwood”

Você não está respirando: “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood

A agônica luta pela vida no coração dos desgraçados, desenraizados e abandonados

Publicado no site Persona Cinema em 31/07/2019.
O treinador Frankie (Clint Eastwood) e a boxeadora Maggie (Hilary Swank)
A ilha lacustre de Innisfree

W. B. Yeats (tradução de Paulo Vizioli)

Vou levantar-me e ir agora, e vou-me para Innisfree,
E lá farei uma choça com barro e vimes torcidos;
Terei feijão, nove filas; e abelhas terei ali;
E estarei só, na clareira entre os zumbidos. 

E lá vou achar a paz, paz que pinga devagar,
Que pinga dos véus da aurora para onde cricrila o grilo;
A meia-noite ali brilha; o meio-dia é esbrasear;
E o poente… pintarroxos vêm cobri-lo.

Vou levantar-me e ir agora, porque sempre, noite e dia,
Ouço o marulho das águas que no lago vêm e vão;
Se na estrada me detenho, ou sobre a calçada fria,
Escuto-o bem, lá dentro do coração.


Quando Frankie (Clint Eastwood) lê esse célebre poema de Yeats para Maggie (Hilary Swank), ela já perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo, está numa cadeira de rodas, com aparelhos de respiração artificial, internada numa instituição de atendimento médico. Estamos na parte final de Menina de Ouro (“Million Dollar Baby”, 2004, dir. Clint Eastwood), que flerta com o melodrama, depois de termos acompanhado a fulminante ascensão de Maggie no boxe, treinada pelo experiente e amargurado Frankie. A choça de barro e vime do poema aparece como um consolo imaginário, uma válvula de escape para a realidade dilacerante.

Por trás de aparentes clichês típicos de filmes de superação no esporte — especialmente no boxe — e de um desfecho que parece se encaminhar para a glória da superação final, entrevemos as sóbrias qualidades que fazem de Menina de Ouro uma das obras-primas de Eastwood. Continue Lendo “Você não está respirando: “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood”