Cada diário é infeliz à sua maneira: “CADERNO PROIBIDO”, de Alba de Céspedes

Publicado na Revista Unamuno em 09/11/2024

Publicada originalmente em 1952, a ficção Caderno Proibido (“Quaderno Proibito”, trad. Joana Angélica d’Avila Melo, ed. Companhia das Letras, 2022) permanece como um reconhecido triunfo de Alba de Céspedes (Itália, 1911-1997) quanto à expressão da condição social e existencial feminina, especialmente no que se refere às inúmeras concessões silenciosas que perfazem o cotidiano de mãe e esposa, bem como na pungente impossibilidade de ver reconhecida a sua vida interior mesmo pelos que lhe são mais próximos e íntimos. 

Narrado em forma de diário por Valeria Cossati, 43 anos de idade, cobre um período de cerca de seis meses entre o final de 1950 e o início de 1951, em Roma, num contexto de estagnação econômica diante da incerteza quanto à possibilidade de nova guerra, porém de acelerada dinamização das relações sociais, dos hábitos culturais e dos conflitos geracionais, evidenciados sobretudo na conduta dos dois filhos que iniciam a vida adulta. Dividindo-se entre o trabalho no escritório e a dedicação ao lar, Valeria se mostra bastante realista e modesta, não alimentando grandes expectativas típicas das heroínas dos romances clássicos. 

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Notas portenhas do subsolo: “O TÚNEL”, de Ernesto Sabato

Publicado na Unamuno em 31/05/2024
Anne Magill

Há esperança suficiente, esperança infinita – mas não para nós”. Sempre que me deparo com essa sentença atribuída a Kafka (em diálogo lembrado por Max Brod), penso em quem seriam os sujeitos; “nós” quem? A humanidade? Kafka e Brod? O autor e seus leitores? Os escritores? Os escritores que não publicam? Os judeus europeus? Os tchecos de língua alemã? Os funcionários de escritórios burocráticos? Os solteirões? Os frequentadores de bordéis? 

Com aforismo não se discute; sente-se ou não sua verdade, seu engenho, sua visão. Penso em diversos momentos na implacável lucidez de Kafka ao longo da leitura da formidável novela do argentino Ernesto Sabato, O túnel (“El túnel”, ed. Carambaia, trad. Sérgio Molina, 2023, publicado originalmente em 1948), como penso no parentesco do narrador-protagonista com os homens do subsolo criados por Dostoiévski. 

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A ficção assume o controle: “IOGA”, de Emmanuel Carrère

Publicado na Unamuno em 11/08/2023

“Quando os personagens são vivos, realmente vivos, diante de seu autor, este não faz outra coisa senão segui-los, nas palavras, nos gestos que, precisamente, eles lhe propõem. E é preciso que ele os queira como eles querem ser.”

(Seis personagens à procura de um autor, Luigi Pirandello) [1]

É impossível calar a voz da consciência; na melhor das hipóteses, pode-se dialogar com ela – e que melhor maneira de fazer isso senão através da leitura e da escrita? Em Ioga (“Yoga”, trad. Mariana Delfini, ed. Alfaguara, 2023), Emmanuel Carrère parte do propósito de escrever um breve manual da prática da meditação e da ioga, para terminar envolvido na rede de narrativas que são tecidas à medida em que escreve, passando, no trajeto, por uma profunda crise depressiva.

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Não há consolo maior que o desconsolo: “Serotonina”, de Michel Houellebecq

Publicado originalmente na extinta Amálgama (24/08/2019) e republicado na Unamuno (09/02/2023)
Nigel Van Wieck

Não há consolo maior que o desconsolo, como não há esperança mais criadora que a dos desesperados. Os homens buscam a paz, diz-se. Mas será isso verdade? É como quando se diz que os homens buscam a liberdade. Não, os homens buscam a paz em tempo de guerra e a guerra em tempo de paz; buscam a liberdade quando sujeitos à tirania e buscam a tirania quando vivem a liberdade”.

(Miguel de Unamuno, “A Agonia do Cristianismo”)

Em A Imaginação Liberal, publicado em 1950, o crítico e professor universitário norte-americano Lionel Trilling defende o pensamento de Freud contra as suposições de que ele adotara uma visão simplista sobre a natureza humana, argumentando que o célebre psicanalista revelou o “nó inextricável de cultura e biologia” que define o homem, que carrega “uma espécie de inferno no seu íntimo, do qual surgem os duradouros impulsos que ameaçam sua civilização”. 

Por mais questionável que seja atribuir a Freud uma intuição que as grandes tradições religiosas e artísticas já possuíam há séculos, o fato é que sua obra e seus desdobramentos influenciaram a cultura e o imaginário do século XX, trazendo à tona a imagem do homem definido por sua “faculdade de imaginar para si, no campo do prazer e da satisfação, mais do que possivelmente conseguirá ter. Tudo o que ganha, ele paga em uma proporção aumentada; o compromisso e a composição com a derrota constituem sua melhor maneira de lidar com o mundo”, conforme definido por Trilling, que conclui: “Suas [do homem] melhores qualidades são o resultado dessa luta, cujo resultado é trágico”.

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O retrato de Anna Kariênina

Ensaio sobre o clássico de Tolstói

Publicado na Unamuno em 10/11/2022
Félix Vallotton

Ao contrário do que se costuma pensar, o leitor experiente inveja o leitor inexperiente; é que este ainda tem pela frente numerosos universos a descobrir, tantos prazeres incalculáveis a experimentar, todo um caminho fascinante a percorrer entre os maiores clássicos, enquanto aquele lida com a nostalgia do tempo perdido e vacila diante da impressão de que a vida nunca voltará a ser tão generosa. Por outro lado, sabe-se que um verdadeiro clássico é redescoberto a cada releitura e que a sua voz nunca cessa de soar, sempre igual e sempre nova.

Todas as histórias de amor são parecidas, mas as histórias tolstoianas são de amor a modo próprio. Ler ou reler Anna Kariênina (publicado originalmente em 1878, aqui citado na edição de 2021 da Editora 34, traduzida por Irineu Franco Perpetuo) é uma dessas grandes descobertas da vida, e embora muito já tenha sido dito a respeito, é sempre possível renovar o entusiasmo diante de um clássico dessa magnitude.

Para além de todos os conhecidos méritos artísticos, psicológicos, morais e históricos do romance, o que talvez ainda não tenha sido devidamente enfatizado é a “profundidade de imaginação, a capacidade espiritual graças à qual as noções suscitadas pela imaginação se tornam tão reais que exigem correspondência com outras noções, e com a realidade”, como diz o narrador sobre o que inexiste em Aleksei Aleksândrovitch, marido de Anna — uma qualidade que remete para a relação da arte e especialmente da ficção com a realidade, culminando no encontro entre Anna e Lióvin. Continue Lendo “O retrato de Anna Kariênina”

Inteiramente só e inteiramente cercado por outros: os livros da família Glass

Publicado na extinta Amálgama (02/04/2021) e republicado na Unamuno (23/02/2023)

Kurt Solmssen

“Um cordão de isolamento formado por estantes que iam até a altura da cintura cercava três das paredes, com prateleiras lotadas e literalmente encurvadas com o peso dos livros — livros infantis, livros acadêmicos, livros usados, livros de Clube de Leitura, mais o acúmulo ainda mais heterogêneo que escapava de ‘anexos’ menos comunitários do apartamento. (Drácula agora estava ao lado de Páli para principiantes, The Boy Allies at the Somme estava ao lado de Bolts of Melody, The Scarab Murder Case e O Idiota estavam juntos, Nancy Drew and the Hidden Staircase estava por cima de Temor e Tremor.)” (Franny & Zooey, pág. 105)

Poesia, romance e filosofia da maior grandeza ao lado (e por cima e por baixo) de romances populares de amplo consumo e de manual de língua antiga. Estamos na ampla e abarrotada sala do apartamento da família Glass, na altura das ruas 70 do lado Leste de Manhattan. Franny, a mais moça entre os sete irmãos, está adoentada, prostrada no sofá, solenemente recusando as insistentes e heroicas ofertas de caldo de galinha da mãe. Zooey, o segundo mais novo, a seu modo em parte espirituoso, em parte atabalhoado, tenta demover a irmã da sua birra, pois sabe que a sua condição doentia é menos um problema de saúde do que um desânimo, uma confusão, uma nostalgia, uma saudade, um vazio — algo vagamente existencial, de algum modo relacionado com aquilo que os rodeia e cujo peso faz envergar as prateleiras: os livros da família Glass. Continue Lendo “Inteiramente só e inteiramente cercado por outros: os livros da família Glass”

A solidão da epifania

Resenha crítica de Pudor e dignidade, de Dag Solstad.

Publicado na extinta Amálgama (07/02/2021) e republicado na Unamuno (12/04/2023)
Lucian Freud

Sem alarde e com tímida divulgação, o mercado editorial brasileiro recebe pela segunda vez uma obra de Dag Solstad (nascido em 1941), considerado um dos mais notáveis ficcionistas noruegueses da atualidade: Pudor e Dignidade (“Genanse og verdighet”, editora Numa, tradução direto do norueguês por Grete Skevik), publicado originalmente em 1994. Suas cerca de 150 páginas podem ser lidas de uma só vez, graças à prosa fluida e percuciente, embora a assimilação pelo leitor não seja tão fácil e ligeira; é com a inquietação, o desconsolo e o amargor de uma crise do protagonista que veremos toda a sua vida ser revista e reavaliada a partir de um momento que parecia ser, a princípio, de iluminação e epifania, para logo se precipitar num abismo de ira, frustração e impotência.

Cativando o interesse do leitor de imediato, o estopim da epifania que se converte em crise se dá no início da narrativa, fazendo do primeiro terço do livro a sua parte mais vigorosa. Quando o professor de literatura Elias Rukla, acostumado com a rotina diária da sala de aula e com os hábitos dos seus mais de cinquenta anos de idade, tem uma súbita e inédita compreensão de um trecho inúmeras vezes relido da peça O pato selvagem, de Ibsen, o momento de rara alegria do professor sucumbe diante da incapacidade de compartilhar o seu entusiasmo com os jovens alunos, completamente alheios ao universo da literatura clássica e totalmente indiferentes ao sentido captado por Rukla nas páginas da obra. Derrotado, o professor deambula pelas ruas de Oslo, iniciando um longo mergulho na memória que recua até os anos 1960, repassando sobretudo a sua amizade com Johan, brilhante estudante de filosofia, e seu casamento com a bela Eva. Continue Lendo “A solidão da epifania”

A beleza sem tradução: “O Adolescente”, de Dostoiévski

Publicado no site Amálgama, em 12/05/2020.
Polaroid de Andrei Tarkovsky

É conhecido um pequeno incidente biográfico que diz mais sobre a obra de Dostoiévski do que parece. O grande autor russo teria desmaiado diante de uma jovem beldade a quem fora apresentado, tamanha a impressão causada por sua beleza. Imediatamente somos levados a lembrar do enorme poder que a beleza feminina exerce sobre os personagens de Dostoiévski. Poder caracteristicamente ambíguo, como são as expressões humanas que compõem o universo do autor, mas que inevitavelmente põe em marcha episódios repletos de rivalidade, inveja, orgulho, obsessão, ressentimento e toda sorte de forças demasiado humanas que arrastam homens e mulheres para o caminho do conflito e da perdição. Em contrapartida, surge no coração dos grandes romances do autor o brilho delicado de uma beleza que, ora oculta, se revela em plena luminosidade, não raro nutrida em meio ao grotesco das paixões exaltadas.

Fala-se na Síndrome de Stendhal, perturbação física e mental causada pela beleza de grandes obras de arte ou de paisagens deslumbrantes, mas como poderíamos caracterizar essa síndrome de Dostoiévski, por assim dizer, que, de um lado, afirma que “a beleza salvará o mundo” (aforismo que remonta a O Idiota), e, de outro, faz desfalecer um homem apenas por ver-se diante de uma jovem encantadora? Que, por um lado, arrasta homens e mulheres para os mais ignóbeis desejos e rivalidades, por outro faz surgir o esplendor da criatura humana na simples visão de um sorriso, por exemplo, ou na contemplação de uma criança? Continue Lendo “A beleza sem tradução: “O Adolescente”, de Dostoiévski”