Resenha crítica de Pudor e dignidade, de Dag Solstad.
Publicado na extinta Amálgama (07/02/2021) e republicado na Unamuno (12/04/2023)

Sem alarde e com tímida divulgação, o mercado editorial brasileiro recebe pela segunda vez uma obra de Dag Solstad (nascido em 1941), considerado um dos mais notáveis ficcionistas noruegueses da atualidade: Pudor e Dignidade (“Genanse og verdighet”, editora Numa, tradução direto do norueguês por Grete Skevik), publicado originalmente em 1994. Suas cerca de 150 páginas podem ser lidas de uma só vez, graças à prosa fluida e percuciente, embora a assimilação pelo leitor não seja tão fácil e ligeira; é com a inquietação, o desconsolo e o amargor de uma crise do protagonista que veremos toda a sua vida ser revista e reavaliada a partir de um momento que parecia ser, a princípio, de iluminação e epifania, para logo se precipitar num abismo de ira, frustração e impotência.
Cativando o interesse do leitor de imediato, o estopim da epifania que se converte em crise se dá no início da narrativa, fazendo do primeiro terço do livro a sua parte mais vigorosa. Quando o professor de literatura Elias Rukla, acostumado com a rotina diária da sala de aula e com os hábitos dos seus mais de cinquenta anos de idade, tem uma súbita e inédita compreensão de um trecho inúmeras vezes relido da peça O pato selvagem, de Ibsen, o momento de rara alegria do professor sucumbe diante da incapacidade de compartilhar o seu entusiasmo com os jovens alunos, completamente alheios ao universo da literatura clássica e totalmente indiferentes ao sentido captado por Rukla nas páginas da obra. Derrotado, o professor deambula pelas ruas de Oslo, iniciando um longo mergulho na memória que recua até os anos 1960, repassando sobretudo a sua amizade com Johan, brilhante estudante de filosofia, e seu casamento com a bela Eva. Continue Lendo “A solidão da epifania”