O paraíso perdido de James Gray

Publicado no Estado da Arte em 22 de agosto de 2020

Foto de Devin Yalkin para The New Yorker

“O desejo do homem sendo Infinito, a posse é Infinita e ele mesmo Infinito” (William Blake)

Depois de explorar as ruas, as noites, os condomínios, os trens, os cheiros e as temperaturas de Nova York nos seus cinco primeiros longas — Fuga para Odessa (1994), Caminho sem volta (2000), Os donos da noite (2007), Amantes (2008) e Era uma vez em Nova York (2013) — , James Gray se afasta de casa, se afasta muito, nos seus dois filmes mais recentes: transita entre a Inglaterra do início do século XX e a selva amazônica em Z: A Cidade Perdida (2016) e viaja até os confins do Sistema Solar em Ad Astra (2019). Abre-se, nesse movimento para fora, uma janela de infinita perspectiva — de fome metafísica — , representada, sobretudo, pelas insaciáveis ambições do explorador arqueológico Percy Fawcett e do explorador espacial McBride (o pai), ambos em busca de uma realidade absoluta que transcenda as contingências da vida e que justifique uma jornada que nunca termina.

Em contrapartida, tamanho salto para dimensões imensuráveis resulta numa sensível perda de calor humano no cinema do diretor — um prejuízo calculado, sem dúvida, pois a dificuldade de estabelecer fortes laços afetivos é um dos aspectos que caracterizam os personagens desses filmes. E, embora seja possível apontar essa característica em variados graus ao longo de toda a filmografia do diretor, o fato é que nos seus dois últimos filmes saem de cena os ambientes domésticos, os apartamentos abafados, as danceterias efervescentes, a sensualidade feminina, a cultura urbana, o sexo, a umidade noturna do Queens, do Brooklyn e das demais paisagens nova-iorquinas. Até mesmo na ambientação gelada e sombria de Fuga para Odessa a tela está impregnada com mais calor humano, mais epiderme viva, mais desejo pulsante do que na janela formada pelos dois filmes mais metafísicos do diretor. Continue Lendo “O paraíso perdido de James Gray”

Morrer de olhos abertos em “Little Odessa”, de James Gray

Publicado no Estado da Arte em 22 de julho de 2020

Um prolongado plano completamente escuro, ao som de um exuberante e vívido coral: eis os momentos iniciais do primeiro longa de James Gray, Fuga para Odessa (Little Odessa, 1994). Em esplêndida sincronia, no momento mais agudo e elevado da música surge, na obscuridade, um olho em super-close. Faz-se a luz, a pupila oscila como uma lente procurando ajustar-se à claridade — começa o filme. A gênese do cinema de Gray se dá a partir de um olho que se abre na escuridão, por obra de um som celestial. É nesse universo de luz e sombras que vai se desenvolver uma das filmografias mais consistentes surgidas nas últimas décadas, realizada por um nova-iorquino descendente de judeus ucranianos.

O olho que emerge das sombras é de Joshua Shapira (Tim Roth), um assassino a serviço de mafiosos russos em Nova Iorque. Com a frieza e a potência de uma espécie de anjo da morte, ele retorna a Little Odessa — como é conhecida a área de Brigthon Beach, no Brooklyn, onde se concentram descendentes de russos — para uma fracassada e nefasta parábola do filho pródigo: o pai (Maximilian Schell) não quer a volta do filho assassino, apesar do esforço de aproximação empreendido pelo filho mais jovem, Reuben (Edward Furlong), e da doença terminal da mãe (Vanessa Redgrave). O pai sente que a presença de Joshua é o mau agouro do que ele considera um castigo divino. Continue Lendo “Morrer de olhos abertos em “Little Odessa”, de James Gray”

10 filmes de 2019

Estes são os meus dez filmes preferidos de 2019. Considero os que estiveram em cartaz nos nossos cinemas durante o ano (com duas exceções). Estão em ordem de preferência, com título, diretor, um breve comentário e uma foto.

1º) Assunto de Família (Hirokazu Koreeda)

Uma escolha fácil. Costumo gostar dos filmes do Koreeda, mas não tanto quanto deste. Há uma tensão que é instalada desde o princípio, e que vai assumindo crescente dramaticidade com o seu desenrolar, proporcionando ao filme uma força que faltava nos trabalhos anteriores do diretor — sem, contudo, perder o equilíbrio harmônico de planos despretensiosos e despojados, que permitem a espontaneidade bem humorada da interação entre as personagens, bem como a simplicidade cativante de rotinas domésticas, além do lirismo de cenas exteriores junto à natureza. Escrevi sobre o filme para o Persona.

2º) Coringa (Todd Phillips)

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