Notas de leitura – “O ESTRANGEIRO”, de Albert Camus

“L’étranger”, publicado originalmente em 1942. Trad. Valerie Rumjanek, ed. Record, ano da edição não identificado. Lido em 2009, relido em 2025.

Valentine Panici

“- Se andarmos devagar – disse ela – arriscamo-nos a uma insolação. Mas se andarmos depressa demais, transpiramos, e, na igreja, apanhamos um resfriado.

“Tinha razão. Não havia saída.” (pág. 22)

1) A fala da enfermeira, que será relembrada pelo protagonista muito depois, num momento existencial crítico, talvez seja a chave do coração do livro, ao dar uma expressão concreta às aporias da existência. Por mais que se busque alguma forma de equilíbrio, este desejo é sempre precário diante da força implacável dos contrastes.

Como bem observou Vargas Llosa no seu comentário sobre o livro (em A verdade das mentiras), O Estrangeiro é ambíguo e se presta a diferentes perspectivas acerca do caráter do seu herói, cabendo a cada leitor construir o seu próprio julgamento; em última análise, desafiando-nos com o dilema: o que é menos pior? Andar devagar ou depressa? A insolação ou o resfriado? Adaptar-se à ficção da sociedade ou manter-se fiel ao seu próprio personagem íntimo? E assim por diante.

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Notas de leitura – “A LITERATURA E OS DEUSES”, de Roberto Calasso

“La letteratura e gli dèi”, reunião de oito conferências ministradas pelo autor em 2000, trad. Jônatas Batista Neto, ed. Companhia das Letras, 2004.

“Acreditávamos viver num mundo sem névoa e desencantado, avaliável e verificável. Ao contrário, encontramo-nos num mundo onde tudo voltou a ser ‘fábula’. Como poderemos nos orientar? A que fábula vamos nos abandonar se já sabemos que a fábula vizinha tem condições de submergi-la? Essa é a paralisia, a peculiar incerteza dos tempos novos, uma paralisia que todos, desde aquele momento, experimentamos. Nietzsche apresenta-a como o ordálio pelo qual agora temos de passar: a condenação – ou a escolha – a atravessar um mundo totalmente espectral, onde sem dúvida é verdade que ‘tantos novos deuses são ainda possíveis‘ e o passo se prepara para uma nova dança, para ‘uma eterna fuga e busca de muitos deuses, um feliz contradizer-se, voltar a entender, voltar a pertencer a muitas entidades‘. Mas, ao mesmo tempo, tudo isso é envolvido por uma sutil e incontrolável irrisão, tornando a situação passageira, fugidia, em outras palavras: uma paródia.” (pág. 55-56)

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Notas de leitura – “A TRÉGUA”, de Mario Benedetti

“La tregua”, publicado originalmente em 1960. As referências são da edição da Coleção Folha de São Paulo – Literatura Ibero-Americana, trad. Joana Angelica D’Avila Melo, 2012.

arte de Lucian Freud (Retrato de John Deakin)

Sinopse – Escrito em formato de diário ao longo de um ano, narra o cotidiano de Santomé, funcionário contábil de uma empresa comercial em Montevidéu, viúvo há mais de vinte anos, pai de três filhos adultos com quem não tem um relacionamento próximo. Prestes a se aposentar ao completar 50 anos, apaixona-se e vive um romance com Avellaneda, jovem discreta recém contratada como sua subordinada no escritório.

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