10 filmes de 2019

Estes são os meus dez filmes preferidos de 2019. Considero os que estiveram em cartaz nos nossos cinemas durante o ano (com duas exceções). Estão em ordem de preferência, com título, diretor, um breve comentário e uma foto.

1º) Assunto de Família (Hirokazu Koreeda)

Uma escolha fácil. Costumo gostar dos filmes do Koreeda, mas não tanto quanto deste. Há uma tensão que é instalada desde o princípio, e que vai assumindo crescente dramaticidade com o seu desenrolar, proporcionando ao filme uma força que faltava nos trabalhos anteriores do diretor — sem, contudo, perder o equilíbrio harmônico de planos despretensiosos e despojados, que permitem a espontaneidade bem humorada da interação entre as personagens, bem como a simplicidade cativante de rotinas domésticas, além do lirismo de cenas exteriores junto à natureza. Escrevi sobre o filme para o Persona.

2º) Coringa (Todd Phillips)

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Porque meu pai me prometeu

Como o cinema responde à desesperança: das sombras de “First Reformed” à luz do futuro em “Interestelar”

Publicado no site Persona Cinema em 28/02/2019.
A um só tempo majestosa e sombria, equilibrada e obscura, a imagem de abertura de “First Reformed” introduz a ambivalência que caracteriza o filme.

Em uma das cenas mais duras do inesquecível Morangos Silvestres (1957, dir. Ingmar Bergman), há um diálogo na chuva entre Evald e Marianne, casal em crise — ela acaba de revelar que está grávida — , em que ele diz:É um absurdo trazer uma criança a esse mundo e pensar que estará melhor do que nós”. O andamento e o desfecho do filme nos fazem crer que é bem possível que Evald esteja certo do ponto de vista lógico — não há motivo para pensar que as próximas gerações serão mais felizes — , mas que se equivoca tragicamente na sua intenção desesperada de argumentar contra a vida, de fazer crer que a vida mesma não vale a sua pena, de que todo sofrimento é em vão — enfim, de que interromper a gravidez é um ato de razoabilidade ou de lucidez.

Praticamente a mesma fala aparece no mais recente filme de Paul Schrader, First Reformed (2017, intitulado No coração da escuridão em Portugal e sem lançamento no Brasil), novamente por ocasião de um homem em crise, opondo-se à gravidez de sua jovem esposa, Mary (Amanda Seyfried). Ela decide pedir aconselhamento ao reverendo Toller (Ethan Hawke), o pastor da pequena igreja local, colocando-o em diálogo com seu marido, Michael (Philip Ettinger). É nessa conversa que surge a fala e que o drama do filme é desencadeado. Diferente do clássico de Bergman, em First Reformed os rumos da história e sua conclusão são bem mais obscuros e ambíguos — mas não é nossa intenção aqui revelá-los, e sim explorar as tensões que se apresentam a partir do referido diálogo e, num segundo momento, partir para uma viagem no tempo, até o tão temido futuro das gerações vindouras, sem sairmos do cinema. Continue Lendo “Porque meu pai me prometeu”