O peso do silêncio: “Distante”, de Nuri Bilge Ceylan

um lento mergulho no silêncio e na solidão que nos habitam

Publicado no site Persona Cinema em 02/11/2019.
Mahmut (à esquerda) é o anfitrião de Yusuf (à direita), jovem parente do interior que chega em Istambul em busca de trabalho.

Distante (‘Uzak’, 2002), o filme que deu notoriedade ao cinema do turco Nuri Bilge Ceylan, não é do gênero em que o desenvolvimento narrativo tem proeminência, pois é conduzido principalmente pela fotografia e pelos cenários, por meio de uma lenta contemplação em que o cuidado com a imagem revela um aprumo irresistível. Não obstante, as suas propriedades formais se relacionam com a caracterização dos personagens de modo a levantar algumas questões acerca da natureza humana e da expressão artística, sobretudo a partir da solidão, do tédio e do vazio existencial.

Mahmut (Muzaffer Özdemir) é um fotógrafo divorciado que vive confortavelmente em um apartamento em Istambul, tornando-se anfitrião de Yusuf (Mehmet Emin Toprak), jovem parente que deixa o interior empobrecido para buscar emprego na grande cidade. Embora Mahmut tenha origem na mesma localidade do interior, os anos vividos em Istambul tornaram-no próspero, refinado, organizado e devotado ao trabalho, características opostas ao do jovem Yusuf, com seu jeito tosco, negligente e inculto. Convivendo no mesmo apartamento, a aproximação logo evidencia antagonismos, agravados pelo insucesso de Yusuf na procura por emprego. Por outro lado, as frustrações pessoais de Mahmut tornam-se mais expostas diante do olhar alheio, aprofundando a sua melancolia. Ambos passam muito tempo olhando TV e fumando, em gestos vazios que tão somente preenchem um tempo morto que pesa sobre o cotidiano. Continue Lendo “O peso do silêncio: “Distante”, de Nuri Bilge Ceylan”