Publicado no Estado da Arte em 15/06/2022

Ora emprega-se o substantivo esteta para caracterizar o criador de belas (e geralmente enganosas) imagens, ora para evocar afetações vanguardistas ou formalistas, mas, para além desses sentidos mais vulgares e depreciativos, o melhor esteta é aquele que expressa sobretudo a noção de que o ficcional precisa de tanta verdade quanto o real, de que necessita do mesmo grau de atenção, de entrega, de generosidade, de confiança e de desconfiança, para que o seu universo possa crescer e se expandir, até de fato se tornar “a coisa mais próxima da vida” (nas célebres palavras de George Eliot).
Diálogos em que se fala sobre como a literatura e a ficção solicitam plena atenção e dedicação para que sejam vivenciadas como universos autônomos e autênticos, ou em que se fala sobre o valor dos detalhes que não costumam ser percebidos; situações em que a arte invade a realidade, borra os seus contornos e abre frestas para outras camadas — essas são algumas características que vêm sendo exploradas na obra cinematográfica de Ryûsuke Hamaguchi, com êxito crescente a cada novo filme. Enfatizando criativamente o ato de fruição estética, o cineasta japonês tem se revelado um dos grandes estetas do cinema contemporâneo (leia-se também o nosso ensaio sobre o seu longa anterior). Continue Lendo “De espectadores a protagonistas: “Drive My Car”, de R. Hamaguchi.”