O ano da peste. O ano dos cinemas fechados. O ano em que mais assisti filmes na minha vida, porém em que menos vezes fui ao cinema — uma contradição atroz, para quem considera que o ritual da sala de cinema pode ser tão importante quanto o filme em si. Lamentações evasivas de quem assistiu apenas oito lançamentos e oferece esta escassa lista de preferidos:
1º) Uma Vida Oculta (Terrence Malick)
Malick volta a pisar em chão mais firme, ao mesmo tempo em que nos leva para alturas alpinas — e além. Terra e Céu conjugam-se numa grande história de amor. Escrevi sobre o filme para o Persona.
Em determinado momento de Stoner, o magnífico romance de John Williams, o protagonista se vê pressionado a se alistar voluntariamente no exército norte-americano, quando seu país se engaja na 1ª Guerra Mundial, embora ele duvide do sentido do conflito. Ao se aconselhar com seu experiente ex-professor Sloane, ouve o seguinte:
“Você precisa lembrar o que você é, o que escolheu ser e o significado do que está fazendo. Há guerras e derrotas e vitórias da raça humana que não são militares e não são registradas nos anais da história. Lembre-se disso quando estiver tentando decidir o que fazer.” [1]
Ninguém oferece um tão sábio e corajoso conselho a Franz Jägerstätter (August Diehl), o camponês austríaco cuja história inspirou o novo filme de Terrence Malick, Uma Vida Oculta (“A Hidden Life”, 2019). Solitário em sua decisão, ao ser convocado Franz negou-se a prestar o juramento de lealdade a Hitler, sendo preso e executado, além de ter provocado a hostilidade de praticamente toda a vila de St. Radegund (ou Santa Radegunda) contra si e sua família. Continue Lendo “Inundado por uma nova luz: “Uma Vida Oculta”, de Terrence Malick”