10 filmes preferidos de 2024

Lançados nos cinemas de Porto Alegre neste ano, em ordem de preferência.


1º) Folhas de Outono (Kuolleet lehdet, dir. Aki Kaurismäki)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Confesso que não conhecia nenhum dos filmes do diretor finlandês (o que decerto facilitou meu deslumbramento), e portanto não tinhas grandes expectativas. Reforço o coro dos que ficam cativados pelo olhar de Kaurismäki sobre essas figuras solitárias, desajeitadas, apagadas, falidas, e pelo coração genuíno que transparece por trás de um aparente artificialismo frio e irônico. Lembro especialmente do frenesi que percorria a sala de cinema na cena capital da reviravolta do protagonista ao ouvir as moças cantando e tocando no bar. (A propósito, o duo de irmãs se chama Maustetytöt, os seus discos são muito bons, e acabei me tornando um ouvinte frequente do pop irresistivelmente estranho delas, que cai como uma luva no filme e no estilo do diretor).

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Indicações I

1) Sobre a música Inverno (Adriana Calcanhotto), por Túlio Ceci Villaça:

2) Do mesmo autor, sobre Cazuza, Clarice Lispector, Cássia Eller, Legião Urbana:

3) The deracination of literature, ensaio de Mary Gaitskill: https://unherd.com/2022/06/the-death-of-literature

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Travis no cinema ou Kim Min-hee no deserto

Publicado em 25/07/2022 no Estado da Arte e no À pala de Walsh, para a série de textos ‘Diálogos’, cuja proposta é abordar a oralidade e os diálogos no cinema.
Travis (Harry Dean Stanton) em “Paris, Texas”

Tem dias em que a linguagem é sentida como se fosse uma jaula, da qual gostaríamos de escapar ultrapassando os limites das palavras e penetrando em algum reino oculto supra verbal, onde tudo fosse ao mesmo tempo intuitivo e misterioso, contemplativo e sensorial, livre e envolvente. Dessa jaula não se escapa a não ser por meio das artes (ainda que também atreladas às suas respectivas linguagens), especialmente em tempos de comunicação saturada.

Como em De Olhos Bem Fechados, em que o diálogo é proscrito por uma realidade secreta paralela, o cinema oferece um vislumbre dessa lanterna mágica ao mesmo tempo em que interpela o espectador, solicita uma garantia de atenção plena, questiona o conhecimento do código: seja Fidelio, Rosebud ou outra que tivermos aprendido, ainda é uma palavra que precisa ser pronunciada para que se abram as portas desse castelo fascinante e aterrador. Outras vezes nos deparamos com alguma frase lapidar que encerra um universo inteiro em si, batendo a porta bem no nosso nariz: “Forget it, Jake, it’s Chinatown”; ou nos colocando diante de um espelho a dialogar com nossa própria alienação (“You talking to me?”); ou, quando a nostalgia é irresistível, “We’ll always have Paris”. Continue Lendo “Travis no cinema ou Kim Min-hee no deserto”

“Eu vi coisas que vocês não acreditariam”: dez cenas para a eternidade

dez cenas inesquecíveis que ilustram como o amor pelos filmes nos une ao coração da vida (parte 1 de 2)

Publicado no site Persona Cinema em 01/12/2019.
“Eu vi coisas que vocês não acreditariam”: o célebre início do breve monólogo interpretado por Rutger Hauer, potencializado pelo falecimento do ator, é inspiração para refletir sobre as relações entre diversos aspectos do cinema — visual, narrativo, simbólico, imaginativo, transitório, afetivo, entre outros.

No mundo do cinema, um dos fatos marcantes deste ano de 2019 foi a morte de Rutger Hauer, o ator que se notabilizou sobretudo por ter encarnado o inesquecível vilão de Blade Runner. Quando as redes sociais ficaram repletas de homenagens, quase sempre com imagens do monólogo da morte do seu personagem, foi possível constatar que essa cena se gravou com força incomum no coração e na memória do público — e comigo não foi diferente.

Surgiu daí o desafio auto-proposto de escolher minhas dez cenas favoritas do cinema, as dez cenas que mais mexem comigo, que não me abandonam, que são parte de mim. Clichê ou não, acredito que levarei essas cenas comigo para a eternidade; pensando bem, o que eu entendo por eternidade é, em certa medida, formado por essas cenas. Continue Lendo ““Eu vi coisas que vocês não acreditariam”: dez cenas para a eternidade”